InícioBrasilPolíticaDefensores públicos solicitam regulamentação mais restrita para a publicidade de apostas esportivas.

Defensores públicos solicitam regulamentação mais restrita para a publicidade de apostas esportivas.

A onipresença da publicidade das plataformas digitais de apostas esportivas e jogos de azar online, as bets, preocupa defensores públicos que lidam com casos de superendividamento e de acesso à saúde entre a população de baixa renda.

O tema foi debatido nesta terça-feira (7) em reunião conjunta da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa e da Comissão de Assuntos Sociais do Senado.

“Os anúncios das apostas estão em todos os lugares: na televisão, em qualquer horário, sem preocupação com o público que está assistindo, nos campos de futebol, nas placas publicitárias e especialmente no celular”, afirmou a defensora pública Luciana Peles da Cunha, coordernadora do Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon) da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ).

Além da superexposição, a defensora expressou preocupação com o conteúdo das propagandas que disseminam ideias paradoxais.

“A publicidade quer convencer o cidadão de que o jogo é uma oportunidade de ganhar renda extra. Eu nunca vi perder dinheiro como opção de renda.”

Jogos de azar

Luciana Peles da Cunha destacou que os anúncios tentam insinuar que as bets são “entretenimento inofensivo”.

“Mas a regra é clara: a banca sempre ganha. Se o nome é jogo, o sobrenome é azar”, disse.

A defensora defende que as plataformas digitais de jogos sofram as mesmas restrições da publicidade do cigarro – proibida desde 2000.

O defensor público no Estado de São Paulo, Marcelo Dayrell Vivas, que coordena a Comissão de Saúde da Anadep, concorda que essa é uma medida essencial.

Dayrell Vivas acrescentou que o apelo massivo das bets aumentou consideravelmente a procura pelos serviços da defensoria pública e a demanda por atendimento à saúde mental. Ele avaliou que o Estado ainda não está preparado para lidar com as demandas surgidas a partir do início da operação das bets no Brasil em 2018.

“Nos Caps [Centros de Atendimento Psicossocial] precisamos criar grupos especializados para tratar desse tema. Nas UBS [Unidades Básicas de Saúde], é necessário dispor de horários específicos. Não adianta reunir usuários de diferentes tipos de dependências juntos”, observou.

A observação se aplica também ao acolhimento de pessoas que tentaram suicídio devido ao endividamento relacionado ao vício em jogos e suas famílias. “A pessoa que tentou suicídio precisará de internação. Mas que rede de saúde existe para dar continuidade ao tratamento após a alta?”, questionou.

Atividade capilarizada

A economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ione Amorim, identificou que o hábito de apostar em plataformas digitais está “capilarizado dentro da realidade das famílias”. Ela acredita que a forte disseminação das bets “torna mais difícil combater essa atividade tão nociva à saúde financeira e psicológica das famílias.”

A economista espera que, ao adotar medidas restritivas contra as bets e a publicidade dos jogos de azar, os consumidores e a sociedade civil sejam incluídos no debate.

A legalização das bets no Brasil ocorreu no segundo semestre de 2018, com a aprovação da Medida Provisória das Loterias (MP 846/2018), convertida na Lei 13.756/2018. A regulamentação foi sancionada no final de dezembro de 2023, e as novas regras e exigências operacionais começaram a valer em janeiro de 2025.

Os gastos dos brasileiros com plataformas eletrônicas de janeiro de 2023 a março de 2026 superaram R$ 30 bilhões por mês, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

De acordo com a entidade, as apostas comprometeram a renda disponível para o pagamento das dívidas, levando 270 mil famílias à “inadimplência severa” – caracterizada por atrasos de 90 dias ou mais.

A inadimplência causada pelas bets resultou na perda de R$ 143 bilhões no comércio varejista, quantia equivalente ao volume de vendas dos períodos de Natal de 2024 e 2025.

Fonte: Agência Brasil

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Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

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