“Descanse em paz, pai!”, foi a mensagem que Grenaldo Mesut gravou para seu pai, colocada em uma coroa de flores cheia de rosas, gérberas brancas e alstroemerias, que foi posteriormente colocada no pequeno caixão onde os restos mortais de seu pai finalmente descansam.
Morto em 1972 pela ditadura militar brasileira e enterrado como indigente na vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus, na capital paulista, os restos mortais de Grenaldo de Jesus da Silva, pai de Grenaldo Mesut, foram finalmente sepultados na manhã desta sexta-feira (26), em São Paulo, enquanto o público presente entoava a canção Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré.
Foi “caminhando e cantando” que eles saíram em cortejo pelo cemitério e, 54 anos após a sua morte, puderam finalmente enterrar o caixão com os restos mortais de Grenaldo na sepultura 105, na gleba 1, quadra 2, do Cemitério Dom Bosco, cedida pela concessionária Cortel, responsável pela administração do cemitério.
Para que o país não se esqueça das vítimas da ditadura, foi colocada uma imensa placa na sepultura com uma foto de Grenaldo e um texto informando quem foi ele e a data de sua morte, seguida pela mensagem de seu filho: “Podia ser diferente, não é, meu pai?”.
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A cerimônia de sepultamento é resultado dos trabalhos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (Cemdp), do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), da Comissão de Familiares de Pessoas Mortas e Desaparecidas Políticas de São Paulo, da Concessionária Cortel e do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (Caaf/Unifesp).
Homenagem
Antes do sepultamento, o filho de Grenaldo – que também se chama Grenaldo – fez uma emocionante homenagem ao pai, que ele pouco pôde conhecer.
“Para mim é uma felicidade muito grande, é uma mistura de emoções, mas estou muito feliz”, disse Grenaldo ao lado da filha e da esposa.
“E que essa felicidade possa também ser passada aos outros que ainda estão na luta buscando seus entes queridos e familiares. E que um dia eles possam ter a mesma felicidade que estou tendo, de poder dar um lugar digno para meu pai, que foi um herói dessa nação”, completou.
Emocionado, Grenaldo não conseguiu ler a mensagem que havia escrito junto da filha para o momento, sendo lida por sua filha.
“Hoje eu me despeço de alguém que nunca pôde realmente fazer parte da minha vida. Existem dores que nascem da convivência e outras que nascem da ausência. A sua ausência atravessou décadas, gerações e histórias que nunca puderam ser vividas e, mesmo assim, senti falta de todos esses momentos que nunca tive”, escreveu.
“Perder alguém que nunca teve parece impossível de se explicar. É sentir falta de conversas que não aconteceram, de abraços que não vieram e de memórias que não puderam ser construídas. Ainda assim, sua existência permaneceu viva na espera, na busca e na esperança de que um dia eu o encontraria”, prosseguiu na mensagem.
“Mesmo que não fosse da maneira que eu imaginei. Hoje dou um lugar à memória, ao luto que ficou suspenso e à história que insistiu em permanecer. Que esta despedida traga a possibilidade do descanso que eu não pude ter durante todos esses anos e que o senhor, meu pai, possa finalmente encontrar esse descanso de uma forma digna, honrada e justa, assim como imagino que o senhor tenha sido em vida”, concluiu.
Memória e justiça
A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, acompanhou o sepultamento. “[Este momento] tem um profundo significado para a história do Brasil” e “significa um grande avanço para o Estado brasileiro”, afirmou.
“Queremos garantir não só o direito à memória, mas à verdade, à reparação e à justiça. Esse sepultamento tem um simbolismo muito grande, principalmente por ser realizado no Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura. Isso mostra o compromisso do nosso governo em não aceitar que a tortura seja uma prática permitida no país em nenhum outro momento”, acrescentou a ministra à reportagem.
Janine Mello afirmou que o governo federal pretende continuar investindo recursos em trabalhos de identificação dos mortos pela ditadura militar, o que permitiu que Grenaldo pudesse finalmente ser sepultado.
“Ainda temos um longo caminho pela frente. Já conseguimos importantes avanços em relação à alteração das certidões de óbito e na identificação de vítimas da ditadura. Hoje avançamos simbolicamente com esse sepultamento, mas temos um plano de ação que demandará muito trabalho e esforço, e estamos comprometidos a realizar”, afirmou.
A procuradora da República Eugênia Augusta Gonzaga, presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ressaltou que a cerimônia ajuda a devolver dignidade às famílias que sofreram com as violências da ditadura militar brasileira.
“Isso devolve a dignidade para esses corpos que foram escondidos e que ficaram aqui no meio da lama, e também devolve para as famílias a esperança de um dia poder fazer esse sepultamento”, afirmou.
“Esse é um momento de valor imensurável para a família dele e, de certo modo, para todas as famílias, pois a luta de um é a luta de todos”, completou.
Em entrevista à Agência Brasil, o professor da Unifesp e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense, Edson Teles, reconheceu a importância da identificação das ossadas encontradas na vala clandestina do Cemitério Dom Bosco para a construção da memória do país.
“Quando entregamos à família os restos mortais de um desaparecido, também fazemos uma grande reparação histórica ao país e aos movimentos de direitos humanos. Conhecer essa história é entender a fundo a estrutura de violência de Estado que vivemos cotidianamente no país”, disse.
Segundo Ricardo Polito, diretor executivo do grupo Cortel, o sepultamento de Grenaldo representou não apenas o encerramento de uma busca, mas também um símbolo da força, da memória, da verdade e da dignidade humana.
“Quando fui procurado para viabilizar esse sepultamento, percebi que não se tratava de um serviço comum. Era uma família que aguardava há mais de cinco décadas por um momento como esse. Era a oportunidade de devolver dignidade, memória e respeito a uma história que jamais poderia ser esquecida”, explicou Polito.
Para a escritora, ex-presa política e atual integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Amelinha Teles, o sepultamento de Grenaldo é um “reconhecimento de que essa luta [dos familiares] vale a pena”.
“A luta dos familiares contribuiu para a construção da verdade, da memória e da justiça”, disse.
“Esse é um momento de vitória, de agradecimento e de mostrar que a necessidade dessa luta continua. Grenaldo teve a felicidade de enterrar seu pai, mas muitos ainda não tiveram essa oportunidade. A pergunta ‘onde estão os desaparecidos políticos?’ continua no ar e precisamos dar uma resposta”, adicionou.
Grenaldo
Grenaldo foi militar da Marinha brasileira, nascido em São Luís, no Maranhão. Ele foi preso em 1964 e expulso da Força ao reivindicar melhores condições de trabalho. Chegou a fugir da prisão e viver na clandestinidade, mas foi morto em 30 de maio de 1972 ao tentar capturar uma aeronave no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Na época, a imprensa divulgou que ele teria cometido suicídio, seguindo a versão informada pela ditadura. No entanto, o Comitê Brasileiro pela Anistia, os movimentos de familiares de mortos e desaparecidos políticos e ex-presos políticos não aceitaram essa versão oficial, e seu caso acabou sendo incluído entre as vítimas de repressão.
As circunstâncias de sua morte permaneceram obscuras até uma reportagem da jornalista Eliane Brum, publicada em 2003, revelar que ele havia sido morto por agentes do Estado com dois tiros, um na nuca e outro no peito.
Documentos do Instituto Médico Legal (IML) confirmaram que Grenaldo foi sepultado em 1º de junho de 1972 no Cemitério Dom Bosco como indigente e foi considerado desaparecido até ter seus remanescentes ósseos identificados pela equipe do Projeto Perus em abril do ano passado.
A vala
A vala clandestina de Perus foi descoberta pelo jornalista Caco Barcellos em 1990 ao investigar homicídios por policiais militares.
Analisando laudos periciais em uma sala do IML, especialmente nos processos de 1971 a 1973, referentes a mortos encaminhados pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Barcellos notou a letra “T” escrita com lápis vermelho em alguns documentos. Ao perguntar aos funcionários do IML, descobriu que a letra T referia-se a “terrorista”.
Barcellos informou a gestão da então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, sobre a existência da vala, que determinou o início das escavações. No local, foram encontradas 1.049 ossadas sem identificação, incluindo vítimas de esquadrões da morte, indigentes e presos políticos.
Assim que a vala foi descoberta, a prefeitura firmou um convênio com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para a identificação das ossadas, que também foram encaminhadas à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O trabalho foi interrompido pouco tempo depois e, em 2002, as ossadas foram levadas para o Cemitério do Araçá, na capital paulista, sob responsabilidade da Universidade de São Paulo (USP).
A demora na conclusão do trabalho de identificação foi questionada em uma ação civil pública de 2009 do Ministério Público Federal.
Em 2014, uma parceria do Ministério dos Direitos Humanos, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e da Cidadania, e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) permitiu a retomada dos trabalhos de identificação dos restos mortais recuperados da vala clandestina do Cemitério de Perus. Entretanto, poucas ossadas foram identificadas até hoje.
Em 2024, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania assinou um novo acordo de Cooperação Técnica com a Unifesp e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e da Cidadania de São Paulo para financiar a contratação da equipe pericial e a retomada dos trabalhos.
Em março do ano passado, a então ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, reconheceu publicamente a falha do Estado brasileiro na guarda e na identificação dos remanescentes ósseos da Vala Clandestina de Perus.
“O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, em nome do Estado brasileiro, pede desculpas aos familiares dos desaparecidos políticos durante a ditadura militar brasileira, iniciada em 1964, e à sociedade brasileira pela negligência, entre 1990 e 2014, na condução dos trabalhos de identificação das ossadas da vala clandestina de Perus, localizada no Cemitério Dom Bosco em São Paulo”, disse a ministra à época a familiares das vítimas.
Até então, apenas seis restos mortais, de 42 pessoas que provavelmente foram assassinadas durante a ditadura militar e sepultadas na vala de Perus, haviam sido identificados: Denis Casemiro (1991 e confirmado em 2025), Frederico Eduardo Mayr (1992), Flávio Carvalho Molina (2005), Dimas Antônio Casemiro (2018), Aluísio Palhano Pedreira Ferreira (2018) e Grenaldo de Jesus Silva (2025).
Fonte: Agência Brasil

