InícioMundoCalor extremo na Europa atinge recordes e revela crise climática

Calor extremo na Europa atinge recordes e revela crise climática

A primeira onda de calor do verão europeu deste ano surpreendeu autoridades, a população e a comunidade científica, sendo mais intensa do que o esperado. O continente enfrenta ainda legislação trabalhista inadequada e estrutura urbana mal preparada, conforme especialistas ouvidos pela Agência Brasil.

O fenômeno, que teve maior impacto nas regiões central e norte da Europa, trouxe temperaturas acima da média por mais de dois graus durante pelo menos três dias, resultando em recordes históricos no norte da Espanha, na França, no Reino Unido, na Alemanha, na Polônia, na Dinamarca, na Lituânia, na Letônia e na Suécia, segundo a revista científica Nature.

De acordo com o professor Vasco Mantas, PhD e diretor do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra, a causa da onda de calor de junho de 2023 deve-se a um padrão de bloqueio atmosférico chamado Omega Block. As temperaturas extremas são geradas por uma ‘cúpula de calor’, que é uma área de alta pressão estacionada sobre a Europa Ocidental, cujas características lembram a forma da letra grega ômega.

A revista Nature também mencionou que o aumento das temperaturas na Europa está ocorrendo a uma taxa pelo menos duas vezes superior à média mundial. Mantas ressaltou que o mecanismo de bloqueio atmosférico é similar ao observado na onda de calor do verão anterior, mas o atual começou mais cedo, não é o primeiro do ano e apresenta uma intensidade maior, com temperaturas variando de 5 a 12 graus acima das médias sazonais.

Durante um bloqueio em ômega, o fluxo normal da corrente de jato, que transporta sistemas meteorológicos de oeste para leste, é alterado, desviando-se e isolando os sistemas de pressão. Isso permitiu a entrada de ar quente do Norte da África, resultando em céu limpo e forte radiação solar, o que intensificou ainda mais o calor, conforme explica o professor.

Esse fenômeno tem se tornado mais frequente e intenso, aumentando a necessidade de medidas urgentes para mitigar e adaptar os espaços urbanos e territórios vulneráveis.

Paris, 40 graus. Cidade maravilha?

Com a onda de calor, o planejamento urbano voltou ao centro do debate ambiental, um tema recorrente desde a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco-92) no Rio de Janeiro. Apesar da associação da Europa a políticas ambientais, décadas de expansão urbana e pressão imobiliária resultaram na redução de áreas verdes em várias cidades.

O professor Paulo Nossa, da área de Geografia da Universidade de Coimbra, aponta que a falta de áreas verdes e espaços de sombreamento, como parques, tem sido exacerbada pela pressão imobiliária e que erros de zoneamento terão consequências. Os impactos vão além de incêndios florestais e chuvas extremas, afetando diretamente a saúde da população. Ele defende políticas públicas que implementem estratégias permanentes de monitoramento para proteger grupos vulneráveis, especialmente os idosos, pois o aumento da demanda já levou sistemas de saúde ao limite.

Os idosos, assim como crianças, pessoas em situação de rua e indivíduos com doenças cardiovasculares, são parte dos grupos em maior risco. A persistência das altas temperaturas durante a noite dificulta a recuperação do organismo, aumentando a exposição ao calor, declara Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador-geral de Integração Multinível e Análise de Risco do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Alves destaca que o fenômeno é silencioso, afetando a saúde das pessoas, os sistemas de saúde e o funcionamento das escolas. A infraestrutura na Europa não está adaptada para altas temperaturas, pois muitos edifícios foram projetados para o inverno, com ambientes voltados ao frio e com menos circulação de ar.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) reportou que essa é uma das ondas de calor mais intensas já registradas na Europa, com a cidade de Palluau, na França, alcançando a temperatura recorde de 43,8 °C. O calor extremo atingiu todo o sul da Europa e os Bálcãs, em um cenário agravado pelas mudanças climáticas.

Crise climática

Enquanto a palavra “crise” remete à tradição clássica europeia, especialistas afirmam que a magnitude do problema atual exige respostas urgentes. Simon Stiell, secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), declarou que, enquanto a humanidade continuar a queimar grandes quantidades de carvão, petróleo e gás, as ondas de calor extremas só tendem a piorar, assim como outros eventos climáticos, incluindo secas e inundações.

Stiell também enfatizou a necessidade de acelerar a transição para fontes renováveis de energia, proteger as florestas e fortalecer as políticas de adaptação às mudanças climáticas.

A situação é crítica para a Europa, que concentra o maior fluxo de turistas no verão, especialmente nas regiões Sul e Central. Na onda de calor de 2023, países como a Grécia tiveram que fechar atrações turísticas em virtude das temperaturas extremas.

De acordo com o professor Paulo Nossa, muitos destinos turísticos ainda carecem de preparação para enfrentar períodos prolongados de calor intenso. Ele afirma que é imperativo repensar as estratégias de fluxo turístico, levando em conta a dispersão dos visitantes ao longo do tempo e locais, para evitar concentrações em certos períodos. Isso já ocorre com turistas idosos, mas a população economicamente ativa ainda tende a concentrar viagens em um curto espaço de tempo.

O geógrafo sugere protocolos que incentivem horários de visitação distribuídos ao longo do dia, priorizando períodos com temperaturas mais amenas, além de destacar a urgência da adaptação das relações de trabalho. Trabalhadores do setor de turismo, especialmente migrantes e estrangeiros, são considerados os mais expostos aos efeitos das ondas de calor.

É essencial revisar normas trabalhistas, aumentar as medidas de proteção e ajustar jornadas e condições de trabalho à nova realidade climática. A adaptação é urgente, pois as mudanças climáticas já estão modificando o funcionamento das cidades, a dinâmica de trabalho e a resposta dos sistemas de saúde às emergências. A velocidade de adaptação precisa ser equivalente à intensificação desses eventos extremos.

Fonte: Agência Brasil

Nos siga no Google Notícias

COMENTÁRIOS

Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

Últimas Notícias

Continue Lendo