Em uma tranquila manhã de maio, centenas de pessoas se reuniram em torno da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Calama, um distrito da capital rondoniense, Porto Velho. Elas esperavam as equipes da expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania, que ofereceriam atendimento em várias áreas, especialmente de saúde.
A iniciativa, em sua sexta edição, proporcionou às comunidades ribeirinhas de Porto Velho acesso a diversos serviços, muitos dos quais são escassos nas proximidades ou, quando disponíveis, exigem longas viagens que podem levar até nove horas.
Promovida de 20 a 24 de maio pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Pesquisa e Conhecimento de Excelência da Amazônia Ocidental e Oriental (INCT-CONEXAO), a ação contou com a colaboração da faculdade Afya São Lucas, de Porto Velho. Mais de 100 pessoas, incluindo estudantes, professores e pesquisadores, participaram, oferecendo serviços voltados para saúde, educação e cidadania.
A expedição navegou pelo Rio Madeira, visitando as comunidades de Calama, Nazaré e São Carlos, oferecendo atendimento direto à população, além de atividades educativas e científicas. Nos dois primeiros dias, o barco permaneceu em Calama, a maior comunidade da região, com cerca de 2,3 mil habitantes.
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Uma das atendidas foi a agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis, de 52 anos, residente da Gleba Rio Preto. À Agência Brasil, ela relatou que levou mais de duas horas e meia para chegar ao local de atendimento, navegando pelo rio em uma embarcação pequena, após percorrer mais de duas horas a cavalo em uma estrada de 12 quilômetros.
“Para fazer exame de malária, que é comum, temos que vir a Calama. Essa é a dificuldade, sair de lá para ser atendida. Quando vem um barco como esse, com todo tipo de exame e consulta, aproveitamos porque a comunicação é difícil. Às vezes, quando chegamos, o barco já foi embora”, explicou.
Vânia contou com a ajuda de uma vizinha que avisou sobre a chegada do barco.
“Ela soube e eu pedi para avisar o dia certo. Eu fui para a casa dela um dia antes e de lá saímos, porque é muito longe. Se eu fosse sair de casa, teria que sair à meia-noite para chegar aqui às 7h, e talvez não houvesse vagas”, desabafou.
Na véspera, ela já havia realizado consultas para odontologia e clínico geral.
“Fiz o dentista, passei pelas belezas estéticas e também pelo oftalmologista. Sofro da vista desde jovem”, destacou.
Nesta edição, os exames de vista foram os mais procurados, com mais de 200 atendimentos oftalmológicos, devido à escassez de oftalmologistas para essas comunidades. Uma parceria com uma ótica local resultou na doação de 300 óculos de grau.
“Consegui os óculos e vou recebê-los no dia 12 [de junho]”, celebrou Vânia.
A dona de casa Edna Miranda de Sousa, de 52 anos, levou a neta Bianca, de 5 anos, para atendimento. Residentes da comunidade São Francisco, próxima a Calama, Edna relatou que sua comunidade não possui posto de saúde, apenas uma escola de ensino fundamental.
“Queria saber se ela está com anemia ou algo assim. A Bianca reclama de pequenas manchas e verrugas nas pálpebras”, contou. “Dói e coça muito”, resumiu a menina.
A experiência de Edna e Bianca ilustra o esquema de atendimento às populações ribeirinhas. Wuelison Lelis de Oliveira, pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, destacou que a operação foi planejada para atender às demandas das comunidades.
Os atendimentos começavam com uma triagem para identificar as necessidades, aferindo peso, altura, IMC e pressão arterial, antes de cada paciente ser direcionado ao atendimento específico.
“Dividimos o fluxo considerando os atendimentos, incluindo médico, enfermagem, oftalmologia, nutrição, fonoaudiologia, fisioterapia e outras áreas. Se a prioridade do paciente é a consulta médica, ele é encaminhado primeiro para essa consulta”, explicou.
Para realizar os atendimentos, a Afya disponibilizou uma variedade de equipamentos, como cadeiras odontológicas e instrumentos para diagnósticos, com alguns resultados sendo fornecidos quase que imediatamente.
O pequeno Azafi Pitangui, que recebeu atendimento odontológico, ficou animado com os cuidados.
“Gostei do dentista, mas não chorei! Ele colocou a massinha e depois não saiu”, contou, revelando que deseja ser médico para ajudar os outros.
Distância é desafio
Para o estudante de odontologia Jonatas Ponce, a participação na expedição foi uma valiosa oportunidade de aprendizado. Ele se impressionou com a dificuldade de acesso a itens comuns, como escovas de dente e água tratada.
“A logística é complexa. Para atender, trouxe apenas uma mochila com roupa; o restante era material, medicamentos, porque sabemos que as pessoas frequentemente não têm acesso ao que é básico, como medicamentos comuns. O acesso é restrito e depende do transporte fluvial”, relatou.
A distância é um enorme desafio para as comunidades ribeirinhas de Porto Velho e da Amazônia. Com uma extensão territorial de 34.090,952 quilômetros quadrados, Porto Velho é a maior capital do Brasil, ultrapassando até mesmo estados e países em área.
Em linha reta, a distância entre a sede administrativa e Calama supera os 200 km, e a principal forma de deslocamento é fluvial, com trajetos podendo durar de nove a 15 horas, dependendo do sentido, subindo ou descendo o Rio Madeira.
Uma alternativa é viajar para Humaitá, no Amazonas, em uma viagem de cerca de duas horas e meia, seguida por outra embarcação que leva aproximadamente uma hora e 20 minutos para subir o Rio Madeira.
No percurso, a embarcação passa por pequenas comunidades isoladas, onde os ribeirinhos dependem do transporte fluvial para suas atividades diárias.
Grandes balsas também cruzam com os pequenos barcos, transportando caminhões com soja e outros produtos do agronegócio, além de mercadorias diversas. É possível avistar dragas do garimpo ilegal ao longo do caminho.
Diante desse cenário, é compreensível que o deslocamento seja um obstáculo significativo. Luiz Antônio Prado, de 32 anos, que vive há nove em Glebas, uma comunidade próxima a Calama, comentou sobre as dificuldades de acesso à saúde.
“Para quem mora na beira do rio e tem emergência, fica difícil. Muitas vezes é preciso colocar na voadeira. E nem sempre há um ‘motorista’ disponível”, observou.
Em várias ocasiones, a população busca atendimento em Humaitá, que é mais acessível do que Porto Velho. Luiz Antônio, que sentia taquicardia, se consultou sobre seu problema.
Ele estava acompanhado de sua filha, Gorete Maria Prado, de 15 anos, que tem diabetes e recebeu acompanhamento médico.
“Minha glicose estava acima de 600 e fui atendida rapidamente”, contou a adolescente, que se comprometeu a seguir as orientações médicas para controlar a diabetes.
Além de consultas e exames na UPA, as equipes também realizaram atendimentos domiciliares para aqueles com dificuldade de locomoção, como o ex-seringueiro Manoel Dourado da Silva, de 88 anos. Manoel sofreu um acidente vascular cerebral e enfrenta dificuldades de mobilidade.
Após ser atendido pela equipe de saúde, Manoel recebeu medicação e orientações sobre seu tratamento, que foram passadas para sua filha, Maria Aires.
“É muito bom quando vêm pessoas assim, porque aqui é difícil ter acompanhamento médico. Ele não pode mais caminhar e a distância para o atendimento é grande. Às vezes, tentam levá-lo de moto, mas ele não consegue”, relatou Maria, que também buscou atendimento para seu diabetes.
O professor evidenciou que muitos pacientes estão lidando com pressão alta e diabetes.
“Muitos apresentam diabetes e pressão alta descontroladas. É comum a falta de comunicação entre médicos e pacientes. Eles costumam ter receitas, mas não as seguem. Muitos acham que chás podem resolver seus problemas e só tomam medicamentos quando ficam muito mal. Precisamos reforçar o cuidado”, completou.
O professor Gabriel Aurélio de Paiva, líder da equipe de saúde, enfatizou a importância da experiência prática para os alunos.
“Esse é um aprendizado importante. Eu sempre aviso aos alunos que vão fazer atendimentos básicos, em conjunto com os agentes comunitários de saúde. O objetivo é que eles vejam a realidade além do que vivenciam diariamente”, refletiu.
*O repórter participou da viagem a convite da faculdade Afya.
Fonte: Agência Brasil

