Policiais militares e civis em serviço mataram 142 pessoas no primeiro trimestre deste ano, no estado de São Paulo. Isso representa um aumento de cinco vítimas em comparação ao mesmo período de 2025. Quando considerados os policiais fora de serviço, as mortes passaram de 29 para 33 no mesmo intervalo.
Especialistas alertam para o elevado número de óbitos decorrentes de intervenções policiais. O levantamento foi realizado pela Agência Brasil, com base em relatório dinâmico do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP).
O Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp) do MPSP divulga dados sobre mortes em decorrência de intervenção policial (MDIPs). Esses dados são enviados diretamente pelas polícias Civil e Militar à promotoria, conforme diretrizes legais e resoluções da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP).
Considerando apenas a Polícia Militar em serviço, o número de vítimas por letalidade policial se manteve em 134 no primeiro trimestre de 2026, igual ao registrado em 2025. Policiais militares fora de serviço, por sua vez, mataram 29 pessoas entre janeiro e março deste ano, três a mais em relação ao ano passado.
O ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Mauro Caseri, destacou que uma segurança pública eficaz deve reduzir a violência e preservar vidas. Ele afirmou que a falta de políticas de saúde mental robustas para os policiais e a carência de mecanismos de controle e avaliação do uso da força são fatores que perpetuam a alta letalidade policial.
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Caseri, em entrevista à Agência Brasil, apontou que baixos salários, trabalho excessivo e aumento de problemas de saúde mental entre os policiais criam um ambiente perigoso tanto para a população quanto para os próprios policiais.
“Cria-se uma polícia de confronto. Precisamos de uma polícia que resolva conflitos, não que os crie”, concluiu o ouvidor.
Adilson Santiago, presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), afirma que o estado de São Paulo enfrenta uma crise na segurança pública. “Os números demonstram o crescimento da letalidade e da violência policial, além da ineficácia de uma polícia que deveria proteger, mas que viola direitos”, disse.
Ele destaca um apartheid social afetando a população negra e das periferias, indicando um público-alvo que sofre com a insegurança provocada por quem deveria garantir a segurança.
“Observa-se uma falta de preparo. Não há formação adequada nem um comando que possa de fato guiar as forças policiais para se tornarem mais humanizadas e capacitadas para lidar com os desafios sociais atuais”, disse Santiago.
Alta da Letalidade na Gestão Atual
No governo anterior, de 2019 a 2022, o número de mortes por policiais militares em serviço teve uma queda significativa, passando de 720 para 262, com uma redução de 63,6%, conforme dados do Ministério Público.
Entretanto, desde 2023, sob a nova gestão, as mortes decorrentes de letalidade policial começaram a aumentar anualmente. No primeiro ano deste governo, 357 pessoas foram mortas por policiais militares em serviço, um aumento de 95 em relação ao ano anterior. Em 2024, esse número subiu para 653, um aumento de 83% em comparação ao ano anterior. No seguinte, houve novo crescimento, atingindo 703 mortes.
“O aumento da letalidade policial em diversos indicadores não pode ser encarado como algo natural ou um efeito colateral inevitável da atividade policial. Os dados evidenciam um problema estrutural que necessita de enfrentamento direto”, reiterou o ouvidor da Polícia.
O ouvidor ressaltou que o aumento da letalidade não deve ser visto como um indicador de eficiência.
Para combater a alta da letalidade policial, Mauro Caseri defende a urgência em enfrentar a precarização das condições de trabalho, garantir o uso eficaz de câmeras portáteis, revisar práticas operacionais e aumentar a transparência e a responsabilização em todas as instâncias envolvidas nas ocorrências.
Ele acrescentou que muitos profissionais trabalham sob fadiga, pressão psicológica intensa, e com apoio institucional inadequado. Assim, defende políticas obrigatórias de cuidado em saúde mental para os policiais. “Sem essas ações, o risco é o fortalecimento de um modelo de segurança que acentua a violência em vez de controlá-la”, finalizou.
A Agência Brasil buscou uma posição da Secretaria da Segurança Pública do estado, que afirmou que “todas as ocorrências de mortes por intervenção policial são rigorosamente investigadas, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário.”
“O Estado tem implementado medidas contínuas para reduzir a letalidade, como aperfeiçoamentos de protocolos operacionais, capacitação dos agentes e aumento do uso de tecnologias de menor potencial ofensivo. Os investimentos superaram R$ 27,8 milhões na aquisição de mais de 3.500 unidades dessas tecnologias”, disse em nota.
Segundo a SSP, o total de câmeras operacionais portáteis está sendo ampliado para 15 mil. “Programas como o Muralha Paulista combinam tecnologia, inteligência e bancos de dados para aumentar a eficiência e reduzir a necessidade de uso da força”, informou, acrescentando que há mais de 125,5 mil câmeras interligadas e mais de 70% da população paulista coberta pelo sistema.
Fonte: Agência Brasil

