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Ódio, Big Techs e Extrema-Direita: A Dinâmica da Misoginia

Nos últimos tempos, diversos casos de violência e ódio contra mulheres ganharam destaque nos noticiários e nas redes sociais. Entre eles, o feminicídio de uma policial militar em São Paulo e o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. Também foram noticiados vídeos no TikTok em que homens simulam atacar mulheres que rejeitam propostas de casamento.

Esses episódios não devem ser encarados como isolados, mas sim como parte de uma engrenagem complexa de misoginia, que conecta experiências individuais de frustração a estruturas econômicas e projetos políticos globais, como analisam especialistas consultados pela Agência Brasil.

As investigações sobre a morte da policial Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça em seu apartamento, revelam que o marido dela, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, utilizava em suas conversas termos comuns em grupos misóginos online, como “macho alfa” e “mulher beta”, que reforçam a ideia de superioridade masculina e submissão feminina.

A origem do ódio

É fundamental entender o problema sob uma perspectiva histórica. Os grupos de ódio, embora favorecidos pelo crescimento dos ambientes virtuais, já existem há muito tempo.

“Falamos muito sobre o aumento dessa violência, mas ela é secular, existe desde a construção da sociedade. Vemos estruturas patriarcais antigas que submetem as mulheres, e a internet amplifica essa violência”, afirma a socióloga Bruna Camilo.

Bruna, especialista em gênero e misoginia, é apoiada pelo psicólogo social Benedito Medrado Dantas, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que observa que as expressões de ódio às mulheres têm se intensificado em resposta às conquistas femininas.

“Desde que as mulheres começaram a ocupar outros espaços na sociedade que não apenas o do cuidado doméstico, isso tem impactado as estruturas sociais e familiares”, diz.

Recrutamento precoce

Meninos são alvo desses grupos em diferentes plataformas – Bruno Peres/Agência Brasil

Pesquisadores têm identificado que meninos cada vez mais jovens estão sendo atraídos para a chamada “machosfera”, que abrange fóruns, canais de vídeo, grupos de mensagens e perfis em redes sociais voltados para uma concepção conservadora de masculinidade e contra os direitos femininos.

A ativista e professora Lola Aronovich, que enfrenta ataques virtuais há anos, relata sua experiência ao investigar comunidades online, especialmente em jogos.

“O recrutamento é intenso. Ao investigar o Discord, notei que os meninos têm entre 12 e 14 anos, o que me chocou, pois estava acostumada com adolescentes mais velhos”, diz Lola.

Ela explica que a atração para esse discurso é gradual, começando com a reação de meninos a termos misóginos.

“Por exemplo, ao falar de mulheres, podem usar expressões como ‘vagabundas’ e notar como o menino reage. Se perceberem uma abertura, continuam a cooptação”, detalha.

Julie Ricard, pesquisadora da Fundação Getulio Vargas (FGV), mapeou estratégias de recrutamento em outra plataforma, o Telegram, identificando 85 comunidades abertas, o que para ela é apenas “a ponta do iceberg“.

“Algumas dessas comunidades são explicitamente misóginas, enquanto outras se apresentam como espaços de autoajuda. Nesses casos, os jovens são expostos a conteúdos que parecem neutros, mas que contêm narrativas de desprezo contra mulheres”, explica Julie.

As estratégias se expandem por vários canais da internet. Estudos do NetLab da UFRJ identificaram mais de 130 mil canais misóginos no YouTube, abordando temas como “sedução e relacionamentos”, “questões jurídicas” e “vencer a timidez” como porta de entrada para conteúdos de ódio.

Frustração e vulnerabilidade

Por que alguns homens se aliam a ideias que fomentam a opressão e a violência contra mulheres? Os especialistas consideram que a resposta é complexa, envolvendo a experiência individual, mas identificam padrões coletivos que podem ser manipulados pelos líderes da machosfera.

A engrenagem misógina depende de elementos emocionais como frustração, isolamento e insegurança, especialmente entre adolescentes e homens economicamente vulneráveis, destaca o psicólogo Benedito Medrado Dantas.

No caso dos adolescentes, a vulnerabilidade é parte do processo de formação da identidade e amadurecimento socioemocional, tornando-os alvos fáceis para grupos que promovem uma masculinidade violenta e a submissão feminina. Benedito observa que jovens sem espaços de diálogo em casa são os mais suscetíveis.

“Sem interações, não há como as famílias filtrarem as informações que eles acessam. Esse processo de fragilização é preocupante, pois conteúdos violentos podem ser mais atraentes nesse contexto”, afirma Benedito.

Ele ressalta que as mensagens nos grupos utilizam memes e humor para diminuir resistências, tornando-se mais facilmente assimiláveis. Já entre homens adultos, mulheres e o feminismo muitas vezes são considerados bodes expiatórios para problemas pessoais.

“Muitos se veem como vítimas, acreditando ser homens feios ou sem dinheiro. Nesses grupos, o ressentimento com a própria condição é evidente”, observa a pesquisadora Julie Ricard.

Julie identifica duas camadas de frustração presentes nos discursos: econômica e afetivo-sexual, relacionadas à insatisfação dos homens com sua posição na sociedade e com as mulheres.

“Homens socializados para serem ‘provedores’ enfrentam a realidade de rendas que não permitem cumprir esse papel”, destaca.

Hierarquias do ódio

Mesmo na aparente espontaneidade dos grupos misóginos, existem liderança e organização. Bruna Camilo aponta que o processo de cooptação é conduzido frequentemente por homens mais velhos, geralmente acima de 40 anos.

“Essas pessoas vivenciaram um mundo antes e depois da internet. Comum entre eles é o ressentimento, muitas vezes direcionado até mesmo às próprias mães”, observa Bruna.

Os especialistas ressaltam ainda o papel das grandes plataformas digitais na disseminação de discursos de ódio, onde, além da busca por lucro, os executivos muitas vezes se identificam ideologicamente com as ideias veiculadas.

“Esses grupos perceberam que não enfrentavam proibições nas redes sociais e passaram a monetizar suas mensagens misóginas. Cada vez mais pessoas estão apostando nisso como meio de subsistência”, explica a professora Lola Aronovich.

Ela destaca que muitos líderes dessas empresas são ativistas de extrema-direita com laços ao governo de Donald Trump, como o dono da rede X, Elon Musk.

Elon Musk no dia da posse do presidente Donald Trump. Reuters/Mike Segar/Poibida reprodução

Empresário Elon Musk participou do governo do presidente norte-americano Donald Trump – Reuters/Mike Segar/Poibida reprodução

Lola critica também a assimetria na moderação de conteúdo nas plataformas, questionando a justificativa de não censurar usuários.

“Canais feministas que abordam direitos reprodutivos frequentemente têm conteúdos derrubados, enquanto canais que promovem a morte de mulheres não enfrentam sanções”, compara.

Projeto político

No topo desta hierarquia, encontram-se também políticos que se beneficiam do crescimento da misoginia.

“A partir das eleições de Trump em 2016, vimos uma mudança significativa. Os misóginos começaram a se expor mais. Com a eleição de Jair Bolsonaro, houve uma nova onda de visibilidade”, analisa Lola Aronovich.

Para Bruna Camilo, o projeto político da extrema-direita se nutre de ideais reacionários de masculinidade e controle sobre as mulheres.

“Trata-se essencialmente de controle sobre os corpos. O debate de gênero gera discussões profundas, e a extrema-direita busca manter o status quo, onde mulheres não confrontam e homens concentram poder”, conclui.

Caminhos possíveis

Apesar de avanços, como a Lei nº 13.642/2018 que investiga crimes de ódio contra mulheres online, há lacunas a serem preenchidas, incluindo a criminalização da misoginia.

“De que adianta a Polícia Federal declarar que uma pessoa foi misógina, se isso não é tipificado como crime? Isso gera impunidade para esses atos,” destaca Lola Aronovich.

Enfrentar a rede de misoginia exige uma abordagem multifacetada, incluindo medidas educativas direcionadas a meninos e adolescentes.

“O diálogo é o único caminho para transformação. Os homens muitas vezes não sabem se expressar por falta de aprendizado. É necessário investir no diálogo em casa e nas escolas,” sugere o psicólogo Benedito Medrado.

Julie Ricard acrescenta que é uma responsabilidade dos adultos “cuidar da autoestima e saúde mental desses jovens”, tratando isso como uma questão de políticas públicas.

Quanto aos grupos políticos e econômicos que se beneficiam da misoginia, as soluções devem incluir a regulação mais eficaz das plataformas digitais.

“Avançamos na legislação de proteção digital, mas ainda não conseguimos impedir que as big techs mantenham conteúdos misóginos. Por que a Câmara dos Deputados não chamou representantes para discutir esses algoritmos? Se não há enfrentamento, é porque há interesses políticos envolvidos,” questiona Bruna Camilo.

Fonte: Agência Brasil

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Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

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