O Ministério Público Federal (MPF) está conduzindo investigações sobre novas empresas que podem ter cooperado com a ditadura no Brasil.
Atualmente, o MPF investiga 13 empresas suspeitas de envolvimento em graves violações dos direitos humanos.
Segundo o procurador federal Marlon Alberto Weichert, coordenador do grupo de trabalho Memória, Verdade e Defesa da Democracia da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, as investigações estão em diferentes fases, com a expectativa de chegar a acordos com algumas dessas organizações em breve.
“Alguns [procedimentos] já [estão] em diálogo com as empresas, visando a celebrar acordos e estabelecer entendimentos. Outros estão em fase de elaboração de minutas de ações civis públicas.”
Marlon não divulga os nomes das instituições em negociações com o MPF, uma vez que os diálogos ainda estão em andamento. Contudo, a esperança é que esses casos possam abrir novos processos contra mais grupos que colaboraram com a ditadura.
- Mais de 4,3 mil crianças foram resgatadas do trabalho infantil em 2025.
- Desafios das Políticas de Combate ao Trabalho Infantil, segundo Estudo
- Fotógrafa da Agência Brasil é reconhecida com menção honrosa em prêmio
- Lula entrega 18 títulos de terras a comunidades quilombolas.
- Brasil se desculpa por discursos de ódio contra Dom Phillips e Bruno Pereira
“Nosso objetivo é que haja uma terceira onda, maior do que essa segunda onda. Com os recursos oriundos de condenações ou novos acordos, poderemos continuar aperfeiçoando este modelo e ampliando o trabalho, que considero pioneiro.”
Segunda onda
A segunda onda mencionada pelo procurador surgiu do primeiro Termo de Ajuste de Conduta (TAC) realizado em setembro de 2020 com a Volkswagen.
Esse acordo resultou no pagamento de R$ 36,3 milhões pela Volkswagen, sendo a maior parte destinada a indenizações de ex-funcionários que foram demitidos, presos ou torturados.
Cerca de 12% desse total, somando R$ 4,5 milhões, financiaram pesquisas sobre a colaboração de empresas com a ditadura, sob a coordenação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Com esses recursos, o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf) da Unifesp realizou o mais abrangente estudo no país sobre as relações entre capital privado e opressão militar, coletando evidências documentais e testemunhais contra as 13 corporações atualmente sob investigação do MPF.
Violações
O professor da Unifesp Edson Teles, que coordenou o projeto no Caaf, afirmou que todas as empresas foram envolvidas em violações de direitos durante a ditadura.
Entre as violações identificadas estão práticas como manter salas de tortura em suas instalações e atacar populações indígenas e tradicionais, além da cumplicidade com os órgãos repressivos.
O especialista explica que a “cumplicidade” se manifestava em estruturas de vigilância e divisão de informações internas. Esses “departamentos” organizavam “listas sujas” com nomes de trabalhadores ligados a sindicatos ou que lutavam por direitos.
“Não é incomum encontrar policiais ou militares trabalhando dentro dessas empresas, e uma das diretrizes do regime era que essas firmas produzissem listas com os nomes das pessoas a serem perseguidas.”
Segundo Teles, essas listas circulavam entre empresas e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), com o objetivo de criar uma rede de informações para impedir que opositores do regime conseguissem trabalho e sustento.
Para Paulo Abrão, jurista e ex-secretário Nacional de Justiça, o método era sutil, mas extremamente cruel.
“Tinha uma sutilidade perversa que desconstruía o projeto de vida das pessoas, afetando sua condição econômica, num processo prolongado de exclusão.”
Esse foi o caso da família do jornalista Ivan Seixas, que foi preso junto com seu pai aos 16 anos. Antes de serem detidos, já enfrentavam perseguições.
“Meu pai era funcionário da Petrobras e foi demitido. Depois, teve dificuldade para encontrar emprego. Morávamos no Rio de Janeiro e ele não conseguia trabalho em lugar nenhum. Tivemos que nos mudar para Porto Alegre para tentar escapar da repressão e evitar a lista suja que excluía inimigos da ditadura.”
Além das dificuldades econômicas, as famílias perseguidas enfrentavam estigmas sociais, especialmente as mulheres.
“As mulheres, quando o marido era preso, não tinham como se sustentar. Naquele tempo, era assim. Além disso, havia o estigma de serem familiares de supostos terroristas ou comunistas perigosos. Assim, eram constrangidas e passavam por dificuldades.”
O pai de Ivan morreu um dia após a prisão, sob tortura, na frente do filho. Ivan permaneceu preso sem condenação até os 22 anos.
Para Edson Teles, as pesquisas do Caaf demonstram que o ideal da ditadura, liderada pelas Forças Armadas, sustentou-se em interesses empresariais.
“Era um projeto de país alinhado aos planos das grandes corporações, que buscavam dominar o território para retirar riquezas e explorar trabalhadores.”
Pelas brechas
Enquanto as pessoas físicas que participaram das violações permanecem protegidas pela Lei da Anistia de 1979, revalidada pelo STF em 2010, o foco nas empresas abre caminho para buscar justiça.
“O Brasil é o único país da América Latina que não alterou sua posição sobre as leis de impunidade. Todos os outros países tiveram mudanças em suas legislações, menos o Brasil”, lamenta Marlon Weichert.
A investigação da Volkswagen iniciou-se em 2015 e foi vista como um ponto de virada, pois as pessoas jurídicas não estão cobertas pela Lei de Anistia, possibilitando ao Brasil retomar sua luta por memória, verdade e justiça.
Segundo o procurador, a estratégia brasileira é reconhecida em fóruns internacionais.
“Não conheço outro país que tenha realizado investigações organizadas sobre a cumplicidade do setor econômico com a violação de direitos humanos e a quebra da democracia.”
Fonte: Agência Brasil

