No dia 14 de maio de 2006, Débora Maria da Silva se reuniu com seus três filhos para celebrar o Dia das Mães na Baixada Santista. A comemoração seria ainda mais especial, pois ela havia completado 48 anos quatro dias antes. Porém, no dia seguinte, sua felicidade se desfez: seu primogênito, Edson Rogério Silva dos Santos, um gari de 29 anos, foi assassinado.
Naquele ano, São Paulo vivia um dos períodos mais violentos de sua história. Ataques coordenados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e reações de policiais e grupos de extermínio entre 12 e 21 de maio resultaram na morte de mais de 500 pessoas, um episódio que se tornaria conhecido como os Crimes de Maio. Edson Rogério foi uma das vítimas, e a grande maioria dos mortos era jovem, negra e da periferia, como ele.
“Eu sempre preferi comemorar o Dia das Mães ao invés do meu aniversário. Em 2006, o dia 10 de maio caiu numa quarta-feira, quando meu filho fez uma cirurgia para retirar o dente do siso”, recorda Débora.
No domingo, com um bolo e um churrasco, celebraram o aniversário. Aquela seria a última vez que Edson cantaria os parabéns para a mãe. “Ele disse que ia embora porque trabalharia cedo no dia seguinte. Me deu um beijo e saiu. Depois, só o vi dentro do caixão”, lembra ela.
Edson foi morto no dia seguinte, após parar em um posto para abastecer a moto. “Um rapaz veio ao velório e contou que Edson pediu ajuda quando a gasolina da moto acabou. Ele desceu para socorrê-lo e, ao chegar ao posto, viu duas viaturas abordando meu filho. Ele ficou esperando de longe”, relatou o jovem a Débora.
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“Após a abordagem, os policiais saíram do posto e subiram o morro, onde esperaram por ele. Mataram meu filho encostado em um muro, e ele caiu sobre pedras”, conta Débora.
Edson foi atingido por cinco tiros. “Ele levou um tiro em cada pulmão, um no coração e dois nos glúteos. Teve morte instantânea”, relembra a mãe. “Cada tiro que deram nele eu senti. O do coração doeu mais e até hoje sinto essa dor.”
Passados 20 anos, o aniversário de Débora coincidia novamente com o Dia das Mães, uma data que já não consegue celebrar.
“Não há mais o que comemorar. O Estado tirou isso de mim de forma perversa. Não consigo comemorar o Dia das Mães ou meu aniversário, pois não perdi apenas o Rogério, mas minha família inteira”, lamenta.
Memória
Este ano, Débora revisitou tudo o que passou há 20 anos, separando fotos do filho para um acervo na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e concedendo entrevistas. Ela expressa sua dor: “Estou muito triste porque 20 anos se passaram e o crime do meu filho pode prescrever. É Dia das Mães, meu aniversário e minha mente está tumultuada, lutando para manter minha saúde mental.”
Pouco depois da morte de Edson, Débora ajudou a fundar o movimento Mães de Maio, uma rede de apoio a mães, familiares e amigos de vítimas da violência estatal, que se tornou referência na luta por justiça e memória.
“Maio de 2006 é uma história que contamos como mães cujos filhos morreram como suspeitos. Ninguém merece uma dor como essa. O movimento busca traçar um paradigma sólido e acolhe até mães de policiais, pois nossa dor é universal”, afirma.
Os anos se passaram, mas a luta por justiça continua. Recentemente, o movimento se uniu à organização Conectas Direitos Humanos para enviar um apelo urgente à ONU sobre a omissão do Estado em relação aos Crimes de Maio.
“Nenhuma das execuções foi esclarecida, nenhum agente do Estado foi responsabilizado e as famílias das vítimas não receberam reparação adequada”, afirmam as entidades no documento.
Débora acredita que a morte de Edson foi resultado da violência estatal, não de facções, mas uma retaliação em uma guerra que não era dele. “As mães morreram também, pois não aceitam a impunidade do Estado, que não só mata nossos filhos, mas perpetua a dor”, observa.
“Não podemos naturalizar essas mortes, especialmente as cometidas pela polícia. O massacre de maio é contínuo. Nossos filhos foram tratados como suspeitos, mas sabemos que têm nome e endereço”, desabafa Débora.
Ela nota que esses crimes seguem acontecendo com o mesmo modus operandi. “Sinto vergonha, mas tive que consolar muitas mães que não devem temer em reconhecer a violência policial e dizer que seus filhos importam, mesmo na morte.”
Vinte anos após o massacre, as mães insistem em lutar por um país que lembre e busque justiça, buscando menos violência.
“Queremos viver para contribuir com um novo Brasil, pois parimos seres humanos, não suspeitos. O rótulo de suspeito é dado pela estrutura organizada do Estado, que existe desde o período da ditadura.”
A história de Débora e de outras mães que perderam filhos nos Crimes de Maio será relembrada pelo programa Caminhos da Reportagem, intitulado Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas, que será exibido nesta segunda-feira (11) às 23h na TV Brasil.
Fonte: Agência Brasil

