Em Parauapebas, sudeste do Pará, a criatividade feminina tem promovido transformações significativas. Por meio da produção de mel, cerâmica e biojoias feitas com sementes, essas mulheres demonstram que é viável liderar negócios que combinam realizações pessoais com a valorização cultural, a preservação da floresta e a geração de renda.
Localizadas próximas à Floresta Nacional de Carajás e à maior mina de ferro a céu aberto do mundo, essas mulheres têm coletado materiais para suas produções, conquistando independência financeira e um papel de destaque nas comunidades.
Dentre as iniciativas, destaca-se a Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA), que existe há aproximadamente dez anos. A associação trabalha com mel de apicultura, utilizando abelhas conhecidas, assim como da meliponicultura, com foco em abelhas sem ferrão resgatadas de áreas degradadas.
A criação de abelhas não somente ajuda na preservação ambiental, mas também proporciona alternativas de renda para as mulheres envolvidas. Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras, relata que antes apenas cozinhavam, mas ao tomarem conhecimento de que poderiam fazer outras atividades fora de casa, abraçaram a ideia, levando muitas delas a retornar à escola.
A fundadora, que voltou a estudar aos 51 anos, destaca que várias mulheres no grupo eram analfabetas. “Saímos de dentro da cozinha e hoje estamos empreendendo. Para nós, isso é muito gratificante”, enfatiza. Ana Alice menciona ainda que agora não há mais tempo para afazeres domésticos: “Mudou tudo. A gente não tem mais muito tempo para cozinhar”.
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A AFMA conta com 23 famílias, incluindo homens e mulheres. Embora os homens participem na coleta, as mulheres cuidam da administração, finanças e da embalagem e rotulagem dos produtos. “Os homens vão para o apiário, mas quem administra são as mulheres”, reafirma Ana Alice, atualmente ex-presidente da associação. Elas se organizam para maximizar a produção, comparecendo com a mesma cooperação que as abelhas têm.
Mulheres empreendedoras
Em 2025, mais de 2 milhões de pequenos negócios no Brasil foram iniciados por mulheres, segundo dados do Sebrae. A proporção de pequenos negócios abertos por mulheres aumentou para quatro em cada dez, superando os números do ano anterior. Renata Batista, gerente do Sebrae no Pará, observa que o número de mulheres empreendedoras subiu de 8,2 milhões em 2015 para 10,4 milhões em 2025, um crescimento de 27% em uma década, acima do índice masculino.
Esse crescimento é resultante de vários fatores, como a maior escolarização feminina e a busca por autonomia financeira. Contudo, as mulheres ainda são uma minoria nos novos empreendimentos, representando apenas 37,6% das pequenas empresas no Pará.
Apesar das dificuldades, elas continuam a buscar oportunidades de se estabelecer no mercado, com apoio de governantes e empresas privadas. Patricia Daros, da mineradora Vale, acrescenta que os negócios liderados por mulheres vão além da geração de renda, promovendo também o empoderamento feminino; 30% dos 50 projetos de bioeconomia apoiados pela mineradora são liderados por mulheres.
Preciosidades da Amazônia
Parauapebas, emancipado em 10 de maio de 1988, tem sua formação populacional ligada à exploração mineral na Serra dos Carajás, iniciada na década de 1960. A mineração é um motor econômico, mas a bioeconomia tem se expandido, convertendo mais de 100 tipos de sementes em biojoias que unem arte e sustentabilidade.
Luciene Padilha, secretária da Associação Preciosidades da Amazônia, relata que a associação não só melhora a vida econômica, mas também o aspecto social e emocional das participantes. “Quando fizemos o curso, éramos mulheres em situação de vulnerabilidade. Hoje, elas sentem-se fortalecidas”, comemora.
As participantes aprendem a extrair materiais vegetais da natureza, reconhecendo na biodiversidade um valor inestimável. “Aprendemos a ver a natureza como um verdadeiro tesouro da humanidade”, enfatiza Sandra Brasil, tesoureira do grupo.
As artesãs se tornam mentoras para novas gerações, transmitindo conhecimento adquirido. As biojoias que produzem são importantes para a economia local e destacam a importância da preservação da Amazônia.
Renata Batista menciona que projetos como esses são fundamentais para mostrar que é possível gerar renda preservando a floresta e valorizando a biodiversidade. “O mercado dessas biojoias agrada pela combinação de materiais naturais, produção artesanal e histórias culturais”, afirma.
Mulheres de barro
O grupo Mulheres de Barro, composto por ceramistas, emergiu da exploração da mina de cobre Salobo, tocada pela Vale. Durante projetos arqueológicos, as mulheres aprenderam sobre a cerâmica ancestral e passaram a produzir peças que refletem essa tradição.
Essas ceramistas se inspiram em grafismos e formas recuperadas de sítios arqueológicos, utilizando pigmentos naturais. Sandra dos Santos Silva, presidente do Centro Mulheres de Barro, relata que, após 2002, tiveram acesso à capacitação em cerâmica que as permitiu desenvolver habilidades desde o zero, e agora eles fabricam e oferecem cursos.
Ao invés de extrair argila da natureza, elas utilizam sobras de construções, adotando uma abordagem sustentável. Através desse trabalho, o grupo se tornou um exemplo de preservação da memória ancestral e da floresta local.
Maria do Socorro Assunção Teixeira, fundadora do grupo, expressa sua felicidade ao se tornar uma multiplicadora de conhecimento. “Eu me vejo agora como uma mentora”, disse.
Bioeconomia
Essas iniciativas lideradas por mulheres no Pará ilustram o modelo de bioeconomia, que se baseia no uso sustentável de recursos naturais. “Uma mulher no comando desse tipo de negócio contribui para uma economia baseada na identidade local e distribuição de renda”, destaca Renata Batista.
O governo federal lançou recentemente um Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, que busca fortalecer projetos ligados à sociobiodiversidade e ativos ambientais, mostrando o potencial da Amazônia como espaço para inovação econômica.
Todas as iniciativas mencionadas receberam suporte do Fundo Vale, que destina recursos para promover negócios que valorizam a floresta. A bioeconomia está movimentando R$ 13,5 bilhões no Pará anualmente, embora projetos enfrentem desafios como acesso ao crédito e gestão financeira.
Para aprimorar esses empreendimentos, o Sebrae ressalta a importância de não apenas produzir, mas também estruturar bem a cadeia de suprimentos e o financiamento compatível com a realidade local. Essa abordagem torna viável a sustentabilidade de negócios na área.
*A repórter viajou a convite da Vale.
Fonte: Agência Brasil

