InícioDistrito FederalA importância do brincar na infância e suas repercussões na vida adulta

A importância do brincar na infância e suas repercussões na vida adulta

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) promoveu a terceira edição do Encontro do Brincar na sexta-feira (29/5). O evento técnico-científico reuniu profissionais de saúde, educação, brinquedistas e estudantes para discutir a importância do ato de brincar na infância e seus reflexos na vida adulta, em celebração ao Dia Internacional do Brincar (28/5).

“Em reuniões de caso clínico, era comum a equipe se referir ao paciente pela patologia e pelo leito, em vez de usar o nome da criança. Não se levava em consideração quem era aquele sujeito, seus sonhos e desejos.”

Valdenize Tiziani, diretora executiva do HCB

No início das atividades, a diretora executiva do HCB, Valdenize Tiziani, recordou a evolução histórica da criança como sujeito de direitos e enfatizou a mudança de paradigma na medicina. Segundo Tiziani, historicamente, o conhecimento médico priorizava o diagnóstico em detrimento da identidade do paciente.

“Em reuniões de caso clínico, era comum a equipe se referir ao paciente pela patologia e pelo leito, em vez de usar o nome da criança. Não se levava em consideração quem era aquele sujeito, seus sonhos e desejos,” contextualizou Tiziani.

Atualmente, o HCB fundamenta suas práticas em diretrizes legais de proteção, como a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o artigo 31º da Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas.

A abordagem científica sobre o tema também orienta a maneira como o hospital estrutura a jornada do cuidado dos pacientes. A gerente de Pesquisa do HCB, Cristiane Salviano, ressaltou que a instituição trata o lúdico com rigor técnico. O hospital conta com uma arquitetura planejada e serviços estruturados para que o brincar induza o desenvolvimento infantil, integrando a ciência do brincar à rotina hospitalar. Atualmente, o HCB possui oito brinquedotecas: cinco nas alas de internação e três nos ambulatórios, com livre acesso para pacientes e familiares.


Brinquedotecas e a construção da cidadania

A conferência de abertura, intitulada “O papel do brincar no ambiente hospitalar de crianças e adolescentes”, foi ministrada por Maria Célia Malta Campos, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP) e presidenta da Associação Brasileira de Brinquedotecas (ABBri). A palestrante defendeu a universalização do acesso ao “brincar livre, em todos os lugares e para todos”. Segundo ela, a criança utiliza a brincadeira para processar experiências vividas, enquanto adultos usam o lúdico como ferramenta de projeção e criatividade. “O adulto pode viajar para outro planeta, ir para o futuro, devanear,” explicou.

Maria Célia enfatizou que, na brincadeira, a criança constrói sua própria identidade, sem imitar o comportamento adulto. Para ela, a brincadeira é o primeiro “laboratório de cidadania”, onde se aprende a tomar decisões coletivas, respeitar o espaço alheio, exercitar o direito de fala e se responsabilizar pelas próprias ações.


De acordo com a especialista, marcos legais recentes, como o Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257/2016) e a Parentalidade Positiva (Lei nº 14.826/2024), têm pressionado os agentes públicos a estruturar políticas voltadas para a primeira infância. A professora criticou a visão utilitarista da sociedade, que tende a desvalorizar atividades que não geram produtividade imediata. “Quando pensamos em qualidade de vida e saúde mental e física, o brincar assume outro valor. O hospital funciona como uma ‘bolha’ que desafia essa ideologia social,” afirmou, defendendo a formação técnica rigorosa para os profissionais do setor.

Práticas integradas de humanização no HCB

O evento também contou com uma mesa-redonda mediada por Lucy Marina Oliveira, assistente de Promoção da Saúde do Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe), organização gestora do HCB. O debate reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir a intersetorialidade no cuidado pediátrico e o compromisso com a infância repleta de cultura e lazer.

“Foi a necessidade de me comunicar com a criança que me fez usar a criatividade, a música e o balé.”

Luciana Monte, médica coordenadora de Pneumologia Pediátrica do HCB

A médica coordenadora de Pneumologia Pediátrica do HCB, Luciana Monte, compartilhou os resultados do projeto “Na Pontinha do Pé”, que desde 2016 oferece sessões de balé utilizando técnicas lúdicas para estabelecer vínculos terapêuticos eficazes. “Foi a necessidade de me comunicar com a criança que me fez usar a criatividade, a música e o balé. Eu explicava que o oxigênio era como se fosse um ‘elefante’ para que o paciente aceitasse a máscara de forma leve,” relatou.

A integração entre as equipes assistenciais e a pedagogia hospitalar foi o ponto central da intervenção de Lorena Borges, gerente da Linha de Cuidado ao Paciente Oncohematológico. Borges explicou que a ambientação do HCB é utilizada estrategicamente para preservar a identidade da criança durante o tratamento, adequando as ações educativas a cada fase do desenvolvimento.

Na área de reabilitação física, o terapeuta ocupacional Tulio Medina demonstrou como o ambiente externo do hospital pode se tornar um recurso terapêutico, estimulando a imaginação e as funções motoras dos pacientes por meio de charadas e histórias relacionadas ao cenário ao redor.

Encerrando as discussões, Fabíola Gonzaga de Freitas, gerente da Atenção às Aprendizagens da Secretaria de Educação (SEEDF), apresentou o panorama das Classes Hospitalares, que atuam em parceria com a SES-DF para garantir a continuidade do atendimento pedagógico dos estudantes internados. A iniciativa dialoga com as diretrizes do Currículo em Movimento e com o projeto Plenarinha, que introduz conceitos de participação política e controle social desde a educação infantil.

*Com informações do HCB

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Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

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