Embora existam vários estudos sobre discriminação racial no Brasil, o país ainda enfrenta desafios para entender como o racismo afeta as desigualdades raciais. Essa é a avaliação de um grupo de pesquisadores, predominantemente negros, que formou um núcleo para abordar essa lacuna.
No final de junho, eles lançaram o Dara, Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo.
O núcleo está associado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e conta com 18 membros, incluindo coordenadores, pesquisadores e equipe de comunicação e tecnologia.
Ligado à Uerj, o Dara recebe financiamento misto de atividades, incluindo recursos de agências públicas e instituições filantrópicas.
A Agência Brasil conversou com Luiz Augusto Campos, coordenador-geral do Dara. Ele destacou as dificuldades nos estudos sobre racismo.
“É muito mais complexo estimar como o racismo impacta nas desigualdades raciais”, afirma.
Ele observa que as pesquisas experimentais “ainda estão em desenvolvimento no Brasil”. Campos ressalta que a equipe do Dara é resultado de ações que facilitaram o acesso de pessoas pretas e pardas ao ensino superior.
“Muitos pesquisadores do Dara fazem parte desse processo histórico”, diz Campos, que integra conselhos sobre inovação democrática, políticas públicas e diversidade racial.
O especialista acredita que as ações antirracistas podem ser aprimoradas. Confira a entrevista:
Agência Brasil: O que o Dara pode oferecer à sociedade?
Luiz Augusto Campos: O Dara se dedica à produção, análise e comunicação de dados sobre o racismo e o antirracismo. Desenvolvemos pesquisas rigorosas e estratégias de comunicação acessíveis para enriquecer o debate público e a formulação de políticas baseadas em evidências.
Agência Brasil: O Dara se propõe a se diferenciar de outros núcleos acadêmicos que fazem pesquisas sobre questões raciais?
Luiz Augusto Campos: O Brasil viu um aumento de centros acadêmicos focados em questões raciais, mas ainda há pouco diálogo entre eles e metodologias tradicionais sendo utilizadas. Embora produzamos muitos estudos sobre desigualdades raciais, é bem mais difícil avaliar como o racismo gera essas desigualdades.
O Dara pretende atuar em duas frentes: colaborar com grupos de pesquisa já existentes e introduzir novas metodologias desenvolvidas internacionalmente.
Agência Brasil: Alguma constatação do Dara surpreendeu os pesquisadores?
Luiz Augusto Campos: Uma das principais constatações é que o Brasil regrediu na análise de dados sobre o racismo. O acesso e a integração das pesquisas existentes estão falhos, e os dados se tornaram menos acessíveis. Observamos também uma concentração nas mensurações das desigualdades, mas pouco foco em como práticas racistas as produzem.
Agência Brasil: Há aspectos do racismo no Brasil que não podem ser medidos pela falta de dados?
Luiz Augusto Campos: O Brasil ainda enfrenta dificuldades significativas para mensurar o racismo e seus efeitos. Apesar de várias pesquisas de opinião existentes, elas não se comunicam adequadamente, comprometendo a comparabilidade e a geração de estimativas. Um dos projetos do Dara visa justamente integrar essas pesquisas.
Para entender os efeitos do racismo, precisamos incorporar pesquisas experimentais, que ainda são limitadas no Brasil.
Agência Brasil: O Dara menciona racismo e antirracismo em seu nome. A sociedade brasileira compreende o que é antirracismo?
Luiz Augusto Campos: O antirracismo evoluiu nos últimos anos, mas enfrenta novos desafios. As políticas de ação afirmativa em diversas áreas são reflexos dos avanços desses movimentos, mas também pressionam contra esses avanços, sugerindo que já se resolveu o problema do racismo, o que prejudica novas políticas. Superar essa resistência exige novos dados e análises que mostrem como o racismo gera desigualdades e como as políticas antirracistas podem ser aprimoradas.
Agência Brasil: A presença majoritária de negros na equipe do Dara é significativa. O que isso representa?
Luiz Augusto Campos: A diversidade de experiências sociais influencia as questões que orientam a pesquisa científica. A inclusão de grupos sociais historicamente sub-representados resulta em novas perspectivas na produção de conhecimento, permitindo que questões antes negligenciadas sejam incorporadas. Essa diversidade não contrasta com o rigor científico; ao contrário, amplifica as perguntas e enriquece a pesquisa.
Quem é
Luiz Augusto Campos, coordenador-geral do Dara e professor associado de sociologia e ciência política no Iesp/Uerj, é doutor em sociologia pela Uerj e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq.
- Realiza pesquisas sobre desigualdades raciais, democracia, ação afirmativa e produção científica, e é editor-chefe da revista Dador e do Consórcio das Ações Afirmativas.
- Coordenou o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) e atuou em grupos da ABCP e da Anpocs.
- Foi pesquisador visitante na Sciences Po em Paris e na New York University nos EUA.
Fonte: Agência Brasil

