Núbia Sales Veras, de 52 anos, mora na Cidade Ocidental, em Goiás, e utiliza diariamente o transporte público para se deslocar até o Lago Sul, em Brasília, onde trabalha. A distância é de cerca de 50 quilômetros.
O custo da tarifa do ônibus e a baixa qualidade do transporte dificultam o acesso a serviços essenciais, como o tratamento para fibromialgia, uma síndrome crônica que provoca dores musculares e articulares.
“Já perdi compromisso e consultas no hospital Sarah por causa da demora do ônibus e do valor da passagem”, relatou à Agência Brasil.
A reportagem conversou com Núbia na última sexta-feira (12), na Rodoviária do Plano Piloto, principal terminal de transporte do Distrito Federal.
Outro problema mencionado por Núbia é o custo da passagem, que chega a R$ 18 por dia, limitando sua vida social.
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“Muitas vezes não pude investir em cultura ou colocar minhas filhas em uma escola melhor por causa do valor da passagem”, destacou.
A vivência de Núbia ilustra a realidade de muitos usuários do transporte público nas grandes cidades do Brasil, conforme aponta um novo estudo do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB).
O artigo intitulado Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços destaca que os custos e a precariedade do transporte dificultam a continuidade do cuidado em saúde, levando a atrasos em diagnósticos e consultas.
Racismo estrutural
O estudo menciona que os longos tempos de deslocamento podem agravar problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, especialmente entre a população negra, que se encontra em maior número entre os grupos de baixa renda.
“As barreiras econômicas e territoriais à mobilidade afetam desproporcionalmente essa população, limitando seu acesso à cidade e aos serviços”, conclui o estudo.
Na mesma rodoviária, a aposentada Helena Simão, de 72 anos, que vive com osteoporose, também falou da dificuldade enfrentada. Embora não pague passagem, ela critica a baixa frequência de ônibus nas áreas periféricas.
“Mesmo sem pagar, já perdi consulta médica pela demora dos ônibus”, denunciou Helena.
Dados do DataSUS mostram que mulheres negras têm o dobro do risco de morte materna em comparação às brancas, o que se relaciona com as limitações de acesso ao transporte.
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Transporte universal
O estudo propõe que a eliminação da tarifa no transporte público pode ser uma política fundamental para reduzir desigualdades, semelhante ao que fez o Sistema Único de Saúde (SUS).
“Isso pode transformar a relação da sociedade com essa política pública”, observa Paíque Duques Santarém, pesquisador da UnB e coautor do artigo.
A eliminação integral das tarifas seria uma ferramenta para garantir o acesso a serviços públicos e combater os padrões de exclusão territorial e racial nas cidades brasileiras.
Pesquisas anteriores sugerem que a gratuidade no transporte público nas 27 capitais brasileiras poderia injetar R$ 60,3 bilhões anuais na economia e ter um impacto similar ao do Bolsa Família.
Fonte: Agência Brasil

