O estudo Juventudes Brasileiras Minorizadas, divulgado em 26 de setembro, revela que jovens vulneráveis enfrentam desafios como dificuldades na continuidade dos estudos, trabalhos informais, violência urbana e cyberbullying. A pesquisa reúne 14 artigos de especialistas e relatos de jovens que lidam com a desigualdade no acesso a direitos, realizada pela Fundação Roberto Marinho, Fundação Itaú, Iede e Unicef.
A pesquisa analisa 13 perfis de juventudes vulnerabilizadas, evidenciando como desigualdades estruturais de raça, renda, gênero e território obstaculizam o acesso a direitos básicos.
Entre os grupos analisados estão juventudes negras, indígenas, quilombolas, rurais, LGBTQIAPN+, jovens mães, pessoas com deficiência, adolescentes em trabalho infantil e jovens refugiados.
Acesso à educação
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua 2025, há mais de 46,5 milhões de jovens de 15 a 29 anos no Brasil, com 7,9 milhões fora da escola sem concluir a educação básica, representando 17% da população jovem; sete em cada dez são negros.
Além disso, 11,9 milhões de jovens vivem em situação de pobreza. Entre os jovens em extrema pobreza, 74,9% são negros e mulheres negras correspondem a 40% da juventude pobre do país.
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Os pesquisadores identificam que fatores como dificuldade de acesso à internet, longos deslocamentos e a necessidade de conciliar estudo e trabalho aprofundam desigualdades históricas.
A superintendente de conhecimento da Fundação Roberto Marinho, Rosalina Soares, destaca que o trabalho visa contribuir para a construção de políticas públicas que considerem as vozes dos jovens.
“Por trás dos indicadores existem trajetórias reais, sonhos interrompidos e desafios cotidianos muitas vezes atravessados por desigualdades persistentes.”
Juventude rural
As desigualdades são mais intensas entre jovens em áreas vulnerabilizadas. Nas zonas rurais, 33% dos jovens estão fora da escola sem concluir a educação básica, o dobro da taxa nas áreas urbanas. Além disso, 69% das juventudes rurais estão em situação de trabalho informal, frente a 41% dos jovens urbanos.
Entre os indígenas, a taxa de analfabetismo é três vezes maior do que a média geral, e apenas 42% dos jovens indígenas de 18 a 29 anos concluíram o ensino médio. Embora haja um aumento nas matrículas em escolas quilombolas, cerca de 30% dos estudantes apresentam atraso escolar.
Discriminação e violência
A pesquisa também aborda os impactos da violência e discriminação nas trajetórias educacionais e profissionais. Jovens negros enfrentam violência urbana em proporção quatro vezes maior do que os jovens brancos. Enquanto isso, as juventudes LGBTQIAPN+ sofrem agressões verbais e físicas que prejudicam sua permanência escolar.
Segundo Mônica Dias Pinto, chefe de Educação do Unicef no Brasil, as desigualdades demandam políticas públicas integradas para garantir educação e inclusão. Ela explica que fatores interseccionais como cor, raça e renda influenciam a desigualdade de oportunidades.
A relação entre escolaridade e inserção profissional é evidente entre jovens mães. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 indicam que, na faixa etária de 15 a 19 anos, 60,8% dos jovens com filhos estão fora da escola sem concluir os estudos.
Em entrevista à Agência Brasil, a cantora e estudante Natália Araújo compartilhou sua experiência como jovem mãe periférica e trabalhadora informal: “Eu engravidei com 17 anos e trabalhei em três lugares durante a gravidez, o que é comum nas periferias. Naturalizar o trabalho infantil não é aceitável.”
Trabalho infantil
A pesquisa revela que adolescentes em situação de trabalho infantil enfrentam exclusão escolar e dificuldades de aprendizagem. Em 2024, aproximadamente 1,6 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estavam nessa condição, segundo a PNAD Contínua.
Para Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Iede, o estudo expande a compreensão sobre as juventudes frequentemente invisibilizadas nas estatísticas. Ele enfatiza que o Brasil enfrenta desigualdades profundas que criam obstáculos em trajetórias educacionais e no mercado de trabalho.
Os organizadores defendem que a pesquisa pode subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas à permanência escolar, proteção social e ampliação do acesso ao trabalho digno para jovens vulneráveis.
Fonte: Agência Brasil

