Um capítulo significativo da história brasileira está sendo revelado. Pesquisas recentes mostram registros financeiros de pessoas escravizadas no século 19, sugerindo que esses valores podem ser quantificados, atualizados e restituídos aos seus descendentes.
A hipótese aponta que o dinheiro depositado em contas da Caixa Econômica Federal foi poupado para financiar a alforria de pessoas escravizadas até a abolição da escravidão, que ocorreu há mais de 130 anos, em 1888.
No período da abolição, existiam no Brasil 723.419 pessoas escravizadas, de acordo com dados da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas — o Ministério da Agricultura da época.
Até agora, o Ministério Público Federal (MPF) identificou 158 cadernetas de poupança abertas por escravizados no acervo histórico da Caixa. Para ampliar essa investigação, o MPF solicitou que a Caixa forneça informações detalhadas sobre os registros financeiros de escravizados.
O MPF requer informações sobre a equipe que trabalhará na apuração, a metodologia a ser utilizada e a quantidade de “livros de conta corrente” disponíveis, que contêm anotações de depósitos e saques dos ex-escravizados, além da remuneração dos juros (6% a cada 6 meses).
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A Caixa informou que está colaborando com o MPF e apresentou todas as informações solicitadas dentro do prazo. O banco também destacou que a preservação de seu acervo histórico é um processo contínuo, realizado por equipes multidisciplinares da Caixa Cultural.
Maior que Copacabana
A documentação a ser investigada não se limita ao século 19, abrangendo toda a história do banco. Se alinhados, os documentos para triagem ocupam uma extensão de 15 quilômetros — 3,6 vezes maior que o famoso calçadão da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
De acordo com a historiadora Keila Grinberg, que estimou essa extensão, a tarefa envolverá separar e catalogar os documentos, verificar suas condições, analisar e disponibilizar as informações à sociedade.
“É essencial organizar de forma adequada, digitalizar e criar ferramentas de busca para que pesquisadores e a população possam acessar as informações”, afirma a professora do Departamento de História e Diretora do Center for Latin American Studies da Universidade de Pittsburgh (EUA).
Historiadores ainda não têm estimativas de quantas cadernetas de poupança foram abertas na Caixa antes da abolição, nem sabem onde se encontra o dinheiro correspondente.
Segundo a pesquisadora, a ação do MPF busca organizar e disponibilizar a documentação da Caixa, facilitando assim as pesquisas sobre o tema.
Para romper o silêncio
Os estudiosos da escravidão e movimentos sociais negros desejam romper com sigilos históricos, segundo o historiador Itan Cruz Ramos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele destaca que a estrutura das relações raciais no Brasil perpetua uma lógica de silêncio e dissimulação, permitindo que a ideia de que cada um é antirracista, cercado de racistas, se perpetue.
No âmbito institucional, ocultar a realidade se combina com apagar o passado, resultando em dificuldades para localizar registros e recuperar a história. O historiador enfatiza que esta negação deriva de um país que evita lidar com o trauma e a luta por direitos do povo negro.
Cruz Ramos também comentou sobre o fundo nacional de emancipação, que deveria auxiliar os escravizados na conquista da liberdade, mas foi desvirtuado para financiar a importação de mão de obra europeia, especialmente trabalhadores italianos nas lavouras de café no sudeste do Brasil. Após a abolição da escravatura em 1888, esse fundo perdeu sua destinação para reparar as injustiças da escravidão, apesar das reivindicações de figuras como Ruy Barbosa.
O fundo, em 1889, possuía uma quantia considerável, mas desapareceu nos anos iniciais da República, sendo reclassificado antes de sumir dos registros. O valor superava o orçamento individual de ministérios do Império. De acordo com Cruz Ramos, ainda há muito a ser descoberto sobre a escravidão e a liberdade, refletindo que há uma quantidade significativa de recursos a ser investigada.
Fonte: Agência Brasil

