Há mais de duas décadas, Márcia Honório da Silva contribui para o futuro do futebol brasileiro com a mesma determinação que demonstrou em sua carreira de aproximadamente 20 anos nos gramados. Após encerrar sua carreira como jogadora, focou nas categorias de base do futsal do Juventus, um renomado clube paulistano. Entre os talentos que ajudou a formar, destacam-se o volante Nonato, do Fluminense, e o meia Rodrigo Nestor, do Bahia.
Atualmente, conhecida como Marcinha, ela coordena equipes de futsal para crianças de sete a dez anos na Sociedade Esportiva e Recreativa de Caieiras (SP), onde nasceu há 63 anos. Um dos seus alunos notáveis foi Matheus Bidu, hoje lateral-esquerdo do Corinthians. Os times são em sua maioria masculinos, mas no sub-7, uma menina se destaca entre os meninos.
“Na minha época, isso não podia”, recordou a ex-jogadora.
Márcia Honório integrou a primeira seleção brasileira feminina, que conquistou o terceiro lugar no Torneio Experimental da FIFA em 1988, na China. O torneio, que contou com 12 países, foi fundamental para a criação da primeira edição da Copa do Mundo Feminina, três anos depois, no mesmo local.
“Eu vivenciei o início de tudo, quando não havia nada além da vontade. Sempre digo às crianças que, hoje, há estrutura e visibilidade, mas o que forma um campeão ainda é o mesmo de antigamente: é coração, respeito pela história e disciplina para ser o melhor”, afirmou Marcinha.
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Após deixar os gramados, Marcinha dedicou-se às equipes de base do futsal. Na foto, ela aparece ao lado do ex-aluno Matheus Bidu, hoje lateral-esquerdo do Corinthians – Acervo Pessoal/Márcia Honório
Pioneiras como ela, que enfrentaram a falta de apoio e visibilidade em suas jornadas no futebol, podem finalmente receber um reconhecimento histórico quase três décadas depois. O Projeto de Lei 1315/2026, que propõe a Lei Geral da Copa de 2027 a ser realizada no Brasil, prevê o pagamento de R$ 500 mil às atletas das gerações de 1988 e 1991.
A iniciativa se inspira em uma medida adotada durante o Mundial masculino de 2014, quando 51 campeões das edições de 1958, 1962 e 1970 foram reconhecidos.
“Isso resgata uma dignidade que foi negada por décadas. É uma prova de que nossa luta em campo finalmente foi reconhecida na história oficial do nosso país. Claro que ajudará muitas pessoas financeiramente, mas o reconhecimento é importante também de modo simbólico”, destacou Márcia Honório.
Rosilane Camargo Motta, conhecida como Fanta, também continua conectada ao esporte. A ex-lateral-esquerda, que participou do Torneio de 1988 e de três Copas do Mundo (1991, 1995 e 1999), atualmente ensina futebol para meninas no Parque Oeste, no Rio de Janeiro. Ela fomenta novos sonhos, mais viáveis agora do que nos 20 anos em que atuou nos campos, defendendo equipes como Santos, Vasco e Radar, este último sendo o principal time feminino do Brasil nos anos 1980.
“Ensinar é sobre vivência, disciplina, persistência e amadurecimento na nossa modalidade, que já foi proibida um dia”, comentou Fanta, referindo-se ao período entre 1941 e 1979, quando o futebol feminino foi banido por um decreto do governo Getúlio Vargas.
Atualmente, Fanta (terceira da esquerda para a direita) dá aulas de futebol para meninas no Parque Oeste, Rio de Janeiro – Acervo Pessoal/Rosilane Camargo Motta
“O reconhecimento das pioneiras é justo e positivo. Acredito que a nossa luta não foi em vão. Essa reparação é um legado para a nova geração”, completou Fanta, que também complementa sua renda como churrasqueira.
Além disso, ela trabalha em uma das Vilas Olímpicas do projeto Rio: Capital do Futebol Feminino, que visa promover a modalidade através de aulas gratuitas, ao lado da ex-zagueira Marisa, outra pioneira e capitã da seleção de 1988. O projeto tem como foco a Copa do Mundo do próximo ano, que é aguardada com grande expectativa pelas pioneiras.
“A importância é que, só pelo fato de ser no Brasil, isso já é uma grande vitória. O impacto da Copa no futebol feminino, nós teremos que descobrir juntos”, projetou Fanta.
“Espero que a Copa melhore o profissionalismo dos clubes e federações, que invistam na base para colher frutos. Que haja uma mudança na preparação das marcas, mostrando que investir nas mulheres e nas atletas é essencial. Desejo ver estádios lotados. Que o Brasil mostre ao mundo que tem capacidade de organizar um evento digno do futebol feminino. Temos muito a fazer, mas já avançamos bastante desde a nossa época”, concluiu Márcia Honório.
Fonte: Agência Brasil

