Um estudo da Comissão Nacional da Verdade (CNV) revela que dois em cada três empresários identificados como apoiadores da ditadura militar no Brasil possuem raízes em famílias escravistas. O relatório final da CNV, no capítulo Civis que Colaboraram com a Ditadura, aponta que 40 dos 62 empresários mencionados tinham genealogias relacionadas à escravidão.
Essa pesquisa foi realizada para o episódio Como Nossos Pais, da segunda temporada do podcast Perdas e Danos, que investiga o apoio empresarial à ditadura militar.
De acordo com Ricardo Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses, essa relação é histórica: “A classe dominante tradicional no Brasil tem um núcleo duro desde o período colonial em todas as regiões.” Segundo ele, a maioria dos empresários tem ancestrais que estiveram envolvidos com o senhoriato escravista.
O levantamento considerou apenas aqueles cuja ascendência foi confirmada através de documentos, como certidões de nascimento e registros de batismo. Sobrenomes como Guinle de Paula Machado e a Família Beltrão são mencionados; eventos como a Greve de 1968, na Cobrasma, mostraram a repressão promovida por empresários ao movimento operário, indicando a colaboração ativa dos setores empresariais com a ditadura.
Lógica da extração
O professor Edson Teles ressalta que a lógica da extração é fundamental para entender a economia da ditadura e sua relação com a tradição escravista, onde os direitos dos trabalhadores eram ignorados. Teles também dirigiu um estudo abrangente sobre as conexões entre a ditadura militar e as empresas no Brasil, destacando que o foco foi desmantelar as organizações operárias.
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“A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu no ataque à organização dos trabalhadores,” reflete Teles.
Com a consolidação da ditadura, o poder de compra dos trabalhadores caiu drasticamente. Em dois anos após o golpe, o salário mínimo perdeu 50% de seu valor, enquanto a desigualdade social aumentou consideravelmente.
Imobilidade
A dominância das mesmas famílias no poder ilustra a imobilidade social no Brasil, onde, segundo a OCDE, um indivíduo que nasce na pobreza leva cerca de nove gerações para alcançar a classe média. Ricardo Oliveira enfatiza que para compreender as desigualdades sociais do Brasil é fundamental estudar a trajetória dessas famílias.
Família Bueno Vidigal
A reportagem também focou na família Bueno Vidigal, destacando sua influência durante a ditadura. Gastão Vidigal, patriarca da família, foi co-fundador da Cobrasma e do Banco Mercantil, ambos com vínculos significativos com o regime militar.
Greve de 1968
As condições de trabalho na Cobrasma eram alarmantes, conforme relatado por Cláudia Moraes de Souza, com a greve de 1968 se destacando como um momento crucial em que os trabalhadores enfrentaram repressão militar.
“Os empresários chamavam o Exército para reprimir dentro da fábrica,” observa Moraes.
Essa greve resultou em mais de 400 detenções e foi um precursor do Ato Institucional 5 (AI-5), que ampliou a censura e a repressão política no Brasil.
Operação Bandeirantes
A Operação Bandeirantes, um dos principais dispositivos de repressão, foi financiada por empresas, incluindo o Banco Mercantil. Ivan Seixas compartilhou suas experiências de detenção e tortura, revelando que existiam recompensas financeiras para a captura de opositores do regime.
A família Bueno Vidigal também teve um papel ativo no Grupo Permanente de Mobilização Industrial, que ajudou a adaptar indústrias para demandas militares durante o regime.
Herança escravocrata
Gastão Vidigal, desde 1889, era descendente de uma família influente no Nordeste. Documentos históricos revelam práticas escravistas em sua linha familiar, alimentando o debate sobre a origem da riqueza do clã. Por exemplo, registros indicam que um de seus antepassados buscou adquirir escravos para trabalho agrícola.
Além disso, as práticas escravistas estavam presentes na família Bueno, com empréstimos lastreados em propriedades que incluíam escravizados, evidenciando a continuidade dessa exploração ao longo da história.
O legado de Gastão Vidigal permanece, sendo ele homenageado em várias localidades com nomes de ruas e avenidas, simbolizando a memória e a perpetuação das desigualdades sociais.
Outro lado
A Cobrasma fechou em 1998, e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal morreu em 2001, mantendo-se como uma figura proeminente. A família foi novamente notícia em 2019, ligada a investigações por corrupção financeira. A reportagem buscou, sem sucesso, respostas sobre o impacto das raízes escravistas na riqueza da família e seu apoio à ditadura militar.
Fonte: Agência Brasil

