A reforma econômica e do Estado em Cuba, discutida na Assembleia Nacional do país, não conseguirá transformar a ilha em uma economia capitalista, sendo uma tentativa “desesperada” de contornar o bloqueio imposto pelos Estados Unidos. A avaliação é do professor e especialista em economia latino-americana Maicon Cláudio da Silva, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
“São medidas quase que desesperadas, para dar algum tipo de respiro à economia cubana, especialmente por meio da flexibilização dos investimentos estrangeiros e das importações de mercadorias, em um momento em que as duas principais fontes de recursos do país [turismo e exportação de serviços médicos] estão sendo atacadas”, comentou à Agência Brasil.
As medidas anunciadas aprofundam e dão continuidade a outras já implementadas na ilha, como a permissão para pequenas propriedades produtivas e a reforma monetária de 2021.
Maicon da Silva enfatiza que o bloqueio dos EUA impacta não apenas as relações comerciais entre Cuba e os norte-americanos, mas também entre Cuba e outros países.
“Os EUA controlam o sistema financeiro e a economia mundiais. Navios que transportam mercadorias para Cuba são impedidos de atracar em portos norte-americanos por um período. Empresas que fazem comércio com Cuba enfrentam punições e ficam impossibilitadas de comercializar com os EUA”, ressaltou.
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Com o endurecimento do bloqueio sob a administração de Donald Trump, diversas empresas aéreas e grandes redes hoteleiras abandonaram suas atividades em Cuba, incluindo Meliá Hotels International e Iberostar, além dos cartões Visa e Mastercard, que deixaram de operar no país de quase 11 milhões de habitantes.
A economia cubana depende, em grande parte, do turismo e da exportação de serviços médicos para obter divisas, utilizadas em importações.
A Casa Branca tem incentivado outros países a romperem contratos com médicos cubanos.
A reforma econômica debatida em Cuba visa alterações nas políticas fiscal, cambial, de comércio exterior, nos subsídios e uma reestruturação do Estado cubano, que inclui descentralização política e liberalização econômica, sempre com o compromisso de promover justiça social e combater desigualdades.
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Socialismo de mercado
Maicon da Silva descarta a possibilidade de uma transformação liberalizante que leve a economia de Cuba a um modelo capitalista.
“Embora algumas pessoas acreditem que as medidas estão aproximando Cuba do capitalismo, enquanto houver bloqueio, nunca haverá a formação de uma burguesia, pois a acumulação de riqueza é restringida. Uma burguesia não consegue se desenvolver como em países que não enfrentam essas sanções”, afirmou.
O professor também menciona a transformação da China na década de 1980, que criou um “socialismo de mercado”, combinando o mercado privado com o controle estatal da economia.
Ele lembra que os EUA foram parceiros da China no desenvolvimento econômico, algo que não ocorre com Cuba.
“O crescimento chinês está vinculado ao desenvolvimento da economia dos EUA, que possui empresas operando lá. No caso de Cuba, essa situação é diferente, restringindo a aproximação com o modelo chinês”, ponderou.
O programa de reformas cubano inclui mais de 20 medidas voltadas para incentivar o investimento estrangeiro direto, aumentar a autonomia das empresas estatais, descentralizar as decisões políticas e dar mais poder aos municípios.
Além disso, há propostas para ampliação da participação de acionistas em empresas cubanas, mudanças nos setores de turismo e imobiliário, e alterações no sistema de subsídios da economia.
Bloqueio econômico
O bloqueio econômico contra Cuba, vigente há quase 70 anos, foi endurecido pela atual administração da Casa Branca no final de 2025, especialmente com as restrições navais impostas à Venezuela, que era a principal fornecedora de petróleo da ilha.
No início deste ano, os EUA ampliaram o bloqueio ao ameaçar com sanções quem vendesse petróleo para Cuba, situação que resultou no país ficar três meses sem receber petróleo.
Nas últimas semanas, o Departamento de Estado dos EUA intensificou a pressão sobre Cuba com novas sanções direcionadas aos setores de turismo, mineração de ouro e à estatal do petróleo.
Essas medidas têm gerado apagões, aumento dos preços de produtos básicos, redução do transporte público e diminuição da oferta da cesta básica alimentar subsidiada pelo Estado.
Para moradores de Havana consultados pela Agência Brasil, este é o pior momento do país.
Fonte: Agência Brasil

