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UFJF e UFMG pedem desculpas pelo uso de cadáveres em aulas sobre a luta antimanicomial

Pelo menos duas instituições públicas de ensino superior se retrataram por terem menosprezado pessoas em hospitais psiquiátricos, utilizando seus cadáveres em cursos de saúde. A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) divulgou uma nota sobre o assunto nesta segunda-feira (18), seguindo o exemplo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que se manifestou no mês passado.

A UFJF iniciou uma carta aberta à sociedade, reconhecendo sua conivência em momentos sensíveis da saúde pública no país. A nota destaca que a segregação social em nome de uma suposta segurança coletiva resultou no isolamento de pessoas e em várias formas de violência. Aqueles que não se encaixavam em padrões eram submetidos a condições mínimas de sobrevivência e a práticas punitivas.

“A partir desse contexto, a chamada ‘loucura’ passou a ser associada à incapacidade e periculosidade, vinculada a uma identidade social deteriorada e desumanizada. Esse processo contribuiu para a consolidação de estigmas e práticas discriminatórias”, diz o comunicado, citando gênero, classe social, orientação sexual e raça como critérios para hierarquizar as pessoas.

Conforme a UFJF, o desprezo por essas pessoas permeou a história brasileira de forma incontornável. A universidade também menciona o Hospital Colônia de Barbacena, que teve uma contribuição significativa na marginalização e invisibilização dos pacientes.

“Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido no local ao longo do século XX, muitas das quais foram classificadas como indigentes, conforme o livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. O livro também relata que 1.853 corpos de internos foram comercializados para instituições de ensino da área de saúde para uso em aulas de anatomia”, destaca.

O Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF recebeu, entre 1962 e 1971, 169 corpos para estudios em aulas de anatomia humana. Como reparação simbólica, a instituição comprometeu-se a lançar iniciativas como ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental e buscar apoio para a criação de um memorial, além de organizar pesquisas documentais sobre sua conexão com o Hospital de Barbacena.

“Desde 2010, o Departamento de Anatomia do ICB implementou o Programa de Doação Voluntária de Corpos – Sempre Vivo. Desde então, todos os corpos recebidos pela instituição são provenientes exclusivamente de doações voluntárias, junto com ações de conscientização sobre a importância da doação em conformidade com as normas vigentes e respeito à dignidade humana”, enfatiza o comunicado.

A UFMG também se desculpou publicamente devido a seus laços com o Hospital Colônia de Barbacena, formalizando seu pedido de desculpas por meio de declaração pública e reconhecendo sua responsabilidade pelas atrocidades cometidas. A universidade ressaltou ações de memória em parceria com grupos da luta antimanicomial, a restauração do livro histórico de registro de cadáveres e a inclusão do tema nas disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina.

“Ao falecerem, muitas dessas pessoas foram enterradas como indigentes ou tiveram seus corpos destinados a instituições de ensino médico para viabilizar aulas de anatomia”, informa o documento.

A UFMG conta, desde 1999, com um programa de doação de corpos para o estudo de anatomia, que ocorre de forma voluntária e consentida, alinhada a padrões éticos e legais internacionais.

Loucura e cultura

Hoje existem muitas obras sobre o tema, incluindo o famoso conto O Alienista, de Machado de Assis. No site do Museu Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, é possível conhecer mais sobre o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, reconhecida por seus cuidados humanizados e pela utilização da arte no tratamento de transtornos mentais.

Fonte: Agência Brasil

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Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

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