O Sistema Único de Saúde pode implementar um novo programa para o rastreamento do câncer colorretal, um tipo de câncer que afeta o intestino grosso e o reto e que tem apresentado aumento no número de casos e mortes.
Especialistas elaboraram uma diretriz com orientações para a testagem, que já recebeu um parecer positivo da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
Nos próximos dias, a Comissão abrirá uma consulta pública para receber contribuições da sociedade, e posteriormente tomará uma decisão definitiva sobre a incorporação das novas medidas no SUS.
A decisão final será do Ministério da Saúde, que está acompanhando o processo, mas todos os representantes do órgão que participam da comissão manifestaram apoio.
A diretriz recomenda que todas as pessoas entre 50 e 75 anos, sem fatores de risco, realizem um teste imunoquímico para identificar sangue oculto nas fezes a cada dois anos. Caso o teste seja positivo, o paciente será encaminhado para uma colonoscopia, a fim de investigar a causa do sangramento e receber o tratamento necessário.
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As orientações se aplicam a indivíduos sem sintomas nem doenças intestinais prévias. O objetivo é identificar lesões pré-cancerígenas e tratá-las antes que se desenvolvam em câncer, ou detectar a doença em estágio inicial, aumentando assim as chances de cura.
Segundo o epidemiologista Arn Migowski, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que integra o grupo de trabalho, esses exames já demonstraram eficácia em reduzir a mortalidade por câncer colorretal, mas sua realização ainda é tímida tanto na rede pública quanto na privada.
Ele acrescenta que a implementação de um programa de rastreamento organizado pode trazer benefícios adicionais.
“Diferente de doenças como o câncer de próstata ou mama, onde podemos diagnosticar apenas em estágios iniciais, no câncer colorretal é possível identificar lesões pré-cancerosas. Assim, o principal objetivo é reduzir a mortalidade, mas também podemos diminuir o número de novos casos”, explica.
Migowski é coautor de um estudo recente que projetou um aumento de quase três vezes nas mortes por câncer colorretal até 2030. Uma das causas da alta mortalidade é que a maioria dos pacientes descobre a doença em estágios avançados, o que o rastreamento organizado visa evitar.
Ainda que o texto inicial da diretriz tenha recebido um parecer favorável, o grupo de trabalho continua discutindo a forma ideal de implementar as medidas no sistema público brasileiro, o que deve ocorrer de maneira escalonada, iniciando em algumas localidades e expandindo progressivamente até abranger todo o país.
Segundo o especialista do Inca, essa abordagem é necessária para que o SUS possa atender a nova demanda, sem comprometer o atendimento rápido a pacientes com sintomas.
“No modelo organizado, a pessoa da faixa etária é convocada ativamente, e então deve seguir o processo, receber os resultados dos exames, ser encaminhada para colonoscopia se necessário e retornará quando for a hora de refazer o exame. Todas essas etapas precisam ser muito bem planejadas”, enfatiza Migowski.
Diagnóstico
A presidente da Associação de Gastroenterologia do Rio de Janeiro, Renata Fróes, ressalta a importância do rastreamento.
“O câncer colorretal geralmente não apresenta sintomas precoces; pode haver sangramento, mas frequentemente não é visível”. Segundo ela, é esse “sangue oculto” que o exame imunoquímico detecta.
Na colonoscopia, o médico visualiza o interior do intestino com um tubo flexível e uma câmera, podendo identificar pólipos adenomatosos, que são lesões pré-cancerígenas.
“Os pólipos são protuberâncias que podem ser removidas com uma pinça introduzida no colonoscópio. Retirá-los impede a progressão para o câncer”, afirma Renata.
Por isso, ela recomenda que todas as pessoas a partir dos 45 anos realizem uma colonoscopia.
A gastroenterologista ressalta que este mês é dedicado à campanha Março Azul, de conscientização sobre o câncer colorretal, e aponta sinais de alerta a serem investigados com urgência, pois podem indicar câncer em estágios avançados:
“Além do sangramento oculto, que pode causar anemia, fraqueza e cansaço, outros sintomas incluem emagrecimento, dor abdominal e mudanças no hábito intestinal. Fezes mais estreitas, como ‘em fitas’, também podem indicar algum grau de obstrução, devido ao crescimento do tumor, dificultando a passagem dos alimentos pelo intestino.”
Fonte: Agência Brasil

