A sobrecarga materna, o preço acessível e fatores afetivos são alguns dos aspectos sociais que incentivam o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em comunidades urbanas em diversas cidades brasileiras, conforme um estudo divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
O estudo entrevistou aproximadamente 600 famílias de três comunidades urbanas: Guamá, em Belém (PA); Ibura, em Recife (PE); e Pavuna, no Rio de Janeiro (RJ).
Apesar de 84% dos participantes se considerarem bastante preocupados em oferecer uma alimentação saudável, em metade das famílias, os alimentos ultraprocessados estavam presentes nos lanches das crianças, e em um quarto, na refeição matinal.
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Os produtos ultraprocessados mais comuns foram iogurtes com sabor, embutidos, biscoitos recheados, refrigerantes e macarrão instantâneo.
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O que são ultraprocessados?
Ultraprocessados são produtos alimentícios industrializados, compostos pela mistura de ingredientes naturais e aditivos químicos, como corantes e aromatizantes. Isso resulta em produtos de baixo custo, longa durabilidade e sabores intensos, que podem ser viciantes.
A pesquisa apontou que o consumo de ultraprocessados está ligado ao aumento de doenças como obesidade, diabetes, problemas cardíacos, depressão e câncer.
Sobrecarga materna
Na pesquisa, 87% das mães responsáveis pela alimentação das crianças relataram exercer a função de comprar e servir os alimentos, e 82% também se encarregaram do preparo.
Entre os pais, apenas 40% comprou alimentos, enquanto 27% cozinhou e 31% ofereceu a comida às crianças.
A oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, destacou a sobrecarga enfrentada pelas mulheres.
“Muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. É uma sobrecarga que torna a praticidade dos alimentos ultraprocessados muito atraente.”
Desconhecimento
Outro achado da pesquisa foi o desconhecimento em relação aos ultraprocessados. Alimentos frequentemente considerados saudáveis pelos entrevistados, como iogurtes com sabor e nuggets fritos na airfryer, na verdade pertencem a essa categoria.
A nova rotulagem frontal que informa sobre altas concentrações de sódio, açúcar e gorduras saturadas não atinge seu objetivo: 26% dos entrevistados não entendem o que esses avisos significam.
Além disso, 55% nunca observam os avisos de alto teor nos rótulos, e 62% afirmam que jamais deixaram de comprar um produto por causa deles.
Preço baixo
A percepção de preço influencia o consumo: 67% das famílias consideram os sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes baratos.
Legumes e verduras são vistos como caros por 68% das famílias, e essa porcentagem sobe para 76% em relação às frutas e 94% no caso das carnes.
Pesquisadores perceberam um componente afetivo, onde as pessoas, por não terem acesso aos alimentos desejados na infância, agora se sentem felizes ao comprar o que suas crianças querem, associando ultraprocessados a momentos felizes da infância.
A oficial do Unicef também ressaltou a dificuldade de controlar o consumo de ultraprocessados, já que os danos à saúde são cumulativos e não imediatos. Contudo, as escolas podem desempenhar um papel vital neste contexto:
“As famílias confiam muito na alimentação escolar, demonstrando a importância das instituições em oferecer alimentos saudáveis e promover hábitos alimentares.”
Recomendações do estudo
Fortalecer a regulação de alimentos ultraprocessados: avançar na regulação da publicidade infantil, tributação de ultraprocessados e promoção de ambientes escolares saudáveis para reduzir a exposição e consumo.
Expandir creches e escolas em tempo integral: aumentar a educação infantil e jornada escolar para oferecer apoio às famílias, aliviar sobrecargas, especialmente sobre as mulheres, e promover hábitos saudáveis.
Fortalecer a orientação alimentar nos serviços de saúde: ampliar o aconselhamento alimentar desde a gestação, promovendo informação de qualidade e evitando a introdução precoce de ultraprocessados.
Apoiar iniciativas e lideranças comunitárias: fortalecer ações locais como hortas, feiras e atividades esportivas para ampliar o acesso a alimentos saudáveis e incentivar atividade física.
Ampliar a compreensão e o uso da rotulagem frontal: promover campanhas educativas que expliquem o significado da rotulagem e seu uso, acompanhando a efetividade das informações.
Investir em comunicação para mudança de comportamento: desenvolver estratégias de comunicação que considerem a realidade das famílias e abordem desafios práticos na alimentação.
Fonte: Agência Brasil

