O encontro entre os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e dos Estados Unidos, Donald Trump, na semana passada em Washington, foi caracterizado pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, como uma conversa repleta de “deferência” e respeito mútuo.
A reunião, que durou 3 horas, focou principalmente na relação comercial entre os países, no combate ao crime organizado internacional e na exploração de minerais estratégicos.
Em entrevista ao programa Na Mesa com Datena, da TV Brasil, Durigan, que esteve presente, relatou que a conversa inicial foi informal e abrangeu as histórias pessoais dos dois líderes.
Segundo Durigan, Trump ficou surpreso com relatos da infância de Lula, especialmente ao saber que o presidente brasileiro comeu pão pela primeira vez aos 7 anos. Trump também ficou impressionado ao saber que Lula não possui diploma universitário, mas que conseguiu ampliar a rede federal de universidades durante seus mandatos.
Outro tópico abordado foi o período em que Lula esteve preso. Durigan mencionou que Trump reagiu com espanto ao ouvir que Lula recusou alternativas jurídicas, como prisão domiciliar, para tentar provar sua inocência plenamente.
- Brasil buscará novos aliados para minimizar impactos comerciais.
- Alcolumbre sugere melhorias na PEC que extingue a escala 6×1 e defende análise nas comissões.
- Lula atribui ao clã Bolsonaro ataque dos EUA ao Pix e à taxação
- Lula defende o Pix e expressa preocupação dos Estados Unidos com o sistema brasileiro.
- Alcolumbre omite posição sobre PEC que extingue escala 6×1, enquanto oposição defende manutenção da jornada.
Segundo o ministro, ambos os presidentes ficaram emocionados ao ouvir sobre os cerca de dois anos que Lula passou na prisão.
“A conversa foi muito franca, e eu me impressionei com o nível de deferência de Trump para com Lula”, destacou o ministro a Datena.
Durigan expressou a sensação de que a admiração de Trump por Lula aumentou após o encontro.
Ainda segundo ele, o encontro incluiu momentos descontraídos, abordando temas pessoais e familiares, numa tentativa de criar proximidade antes das negociações de Estado.
Debate comercial
A pauta econômica foi um dos principais pontos discutidos. O governo brasileiro contestou a narrativa de que os EUA teriam prejuízo comercial em sua relação com o Brasil.
“Os números da administração Trump mostraram que o déficit [comercial] brasileiro [com os Estados Unidos] foi de US$ 30 bilhões em 2025”, lembrou Durigan.
No entanto, segundo o ministro, o Brasil argumentou que compra serviços, tecnologia e produtos americanos em grandes volumes, o que beneficia a economia dos EUA.
“O Brasil não merece ser punido [com tarifas], nosso dólar está indo para os Estados Unidos”, afirmou.
O Brasil defendeu que não deve sofrer medidas tarifárias semelhantes às impostas à China, uma vez que a relação comercial é favorável aos americanos.
Crime organizado
A segurança pública e o combate ao crime organizado transnacional foram outros eixos centrais da conversa.
Lula propôs uma maior cooperação entre os dois países para rastrear recursos financeiros ligados a facções criminosas, especialmente em operações de lavagem de dinheiro em paraísos fiscais nos EUA, como Delaware.
“Empresas brasileiras devedoras estão depositando dinheiro em Delaware, que é um paraíso fiscal”, afirmou Durigan.
O governo brasileiro também apresentou dados mostrando que muitas das armas ilegais apreendidas no Brasil possuem origem nos Estados Unidos.
“A arma apreendida no Brasil, na maioria das vezes, vem dos Estados Unidos”, disse o ministro.
Drogas sintéticas
Durigan também mencionou que o avanço das drogas sintéticas foi pauta da reunião bilateral.
“Drogas sintéticas vêm dos Estados Unidos para o Brasil; queremos ajudar a evitar esse contrabando”, declarou.
Como resultado prático do encontro, foi acordada uma integração entre a Receita Federal brasileira e a aduana americana para o compartilhamento de inteligência e rastreamento financeiro.
“Para combater o crime, é preciso asfixiar a engrenagem que o financia”, reiterou Durigan, ao defender um modelo baseado em inteligência financeira e cooperação internacional.
Minerais críticos
A exploração de minerais estratégicos também foi tema central das discussões. O governo brasileiro apresentou aos americanos sua estratégia para minerais cruciais para a indústria tecnológica e de transição energética, como nióbio, grafeno e terras raras.
“No Brasil, queremos dar segurança jurídica a um negócio que interessa ao mundo: minerais críticos”, disse Durigan.
Funcionários do governo afirmaram que Lula deixou claro que o Brasil não pretende repetir um modelo histórico baseado somente na exportação de matéria-prima.
“O primeiro pilar é a soberania e o segundo é incentivar a industrialização local”, explicou o ministro.
Durigan também relatou que Lula conectou a defesa da soberania econômica brasileira ao discurso nacionalista adotado por Trump.
“Se você é ‘América em primeiro lugar’, eu estou aqui dizendo que o Brasil está em primeiro lugar”, comentou o ministro sobre a fala do presidente brasileiro.
Lula afirmou que o país não deseja seguir ciclos históricos de exploração econômica sem desenvolvimento interno.
“Não queremos repetir um padrão histórico de extração que depois resulta em compras de produtos industrializados. Queremos incentivar a industrialização no Brasil”, enfatizou o presidente.
“Não queremos repetir um padrão histórico que vimos com o ouro ou a cana-de-açúcar.”
Guerra global
A guerra no Oriente Médio e os riscos econômicos globais também foram discutidos durante o encontro.
Segundo Durigan, Lula expressou preocupação com os impactos geopolíticos e econômicos dos conflitos internacionais sobre o Brasil.
“A importância de como nos preparamos e protegemos o Brasil da guerra é o assunto que mais me preocupa”, afirmou o ministro, relatando a posição do presidente.
Clima descontraído
Apesar das discussões sérias, membros da comitiva relataram momentos de descontração durante o encontro.
Durigan compartilhou que, durante o almoço oficial, Trump reclamou da presença de frutas na salada servida.
“Ele disse: ‘Eu não gosto de fruta na minha salada’, e teve que mudar os pratos”, contou o ministro.
O governo brasileiro acredita que o ambiente cordial do encontro ajudou a abrir espaço para futuras negociações comerciais, diplomáticas e estratégicas entre os dois países.
Fonte: Agência Brasil

