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Ilha africana que guarda a memória da escravidão conta com o turismo para sua sustentabilidade econômica.

Localizada no Porto de Dacar, capital do Senegal, Fama Sylla se aproxima de visitantes na fila para comprar ingressos para a balsa que os leva à Ilha de Gorée, um trajeto de menos de meia hora.

“Que tal visitar meu espaço de vendas? Tenho bijuterias e muitos itens típicos”, convida Fama.

A Ilha de Gorée, a aproximadamente 3 quilômetros do porto, é o destino turístico mais visitado do Senegal. Com uma área de 17 hectares, equivalente a menos de 25 campos de futebol, foi declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco em 1978.

Este título contribui para Gorée ser o epicentro do turismo no Senegal. A ilha carrega uma forte carga histórica, servindo como uma memória viva do período da escravidão de africanos.

Saída para as Américas

Devido à sua localização privilegiada voltada para o Oceano Atlântico, Gorée foi utilizada por colonizadores europeus – portugueses, holandeses, ingleses e franceses – como um entreposto para o tráfico de escravizados, que eram forçados a embarcar para as Américas. Essa prática durou dos séculos 15 ao 19.

Os africanos que resistiam à travessia transoceânica enfrentavam a vida de escravizados em regiões como Brasil, Estados Unidos, Cuba, Haiti e no Caribe.

A Casa dos Escravos, uma construção de dois andares na ilha, mantinha africanos aprisionados antes de serem levados pela expressiva “Porta do Não Retorno”. Hoje, este local é o coração pulsante da ilha, servindo como um memorial da escravidão.

A Agência Brasil já havia reportado sobre a visita à ilha em 2023, detalhando a importância de Gorée.

Leia aqui: Ilha de Gorée, na África, é memória viva da escravização negra

Atualmente, Gorée abriga cerca de 1.700 moradores, conforme dados do censo de 2023 da Agência Nacional de Estatística e Demografia (ANSD).

Com o turismo, vem a renda

Em abril, um mês após as Nações Unidas terem declarado a escravidão africana como o mais grave crime já cometido contra a humanidade, a Agência Brasil retornou a Gorée e observou que o fluxo de turistas oferece aos quase 2 mil moradores a chance de gerar renda.

No local, Fama Sylla, a vendedora que atraía clientes no porto, explica sua motivação. “O turismo é essencial aqui, dependemos dele”, afirma.

Ela compartilha que o espaço de vendas é uma tradição familiar. “Temos uma loja que era da minha avó. Isso passou para minha mãe e agora para nós, os filhos”, diz.

Próximo ao cais, Chaua Sall comercializa esculturas de madeira que retratam animais típicos da África, como girafas e hipopótamos. “Quero vender coisas bonitas para as pessoas”, afirma, vestindo um boubou, uma túnica tradicional.

“Aqui recebemos turistas de vários lugares: França, Espanha, Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Itália – pessoas do mundo todo vêm à Ilha de Gorée”, detalha Chaua, que depende do turismo junto com seu filho e irmão.

Hospitalidade para atrair turistas

Aminata Fall tem suas táticas para chamar a atenção dos turistas. “Bom dia”, saúda, usando o português.

Ela aprendeu expressões de diversas línguas como estratégia para interagir com os visitantes. Em Senegal, o francês, legado da colonização, e o wolof são os idiomas mais falados.

Aminata destaca as atividades econômicas da ilha: pesca e turismo. “Aqui, as mulheres têm lojas, e os homens pescam ou atuam como guias. É assim que sobrevivemos”, conclui.

A hospitalidade do povo de Gorée é notável. “Somos acolhedores com todos que visitam a Casa dos Escravos. Após a visita, se desejarem, podem ver nosso mercado”, diz Aminata.

Essa atitude se estende pelo Senegal, onde a seleção nacional de futebol é conhecida como “Leões de Teranga,” com “Teranga” simbolizando a hospitalidade senegalesa.

Arte tradicional

Um dos passeios guiados em Gorée passa pelo ateliê de Cheikh Sow, que cria quadros com paisagens africanas utilizando uma técnica de cola e serragem colorida.

“Decidi ser artista e deixei tudo para viver de pintura, já que meus pais não podiam nos sustentar”, conta Cheikh.

“Tentamos construir casas para melhorar nossas condições de vida. A ilha é calma e tranquila, livre de grandes problemas”, acrescenta.

“Em relação à escravidão, deixamos isso no passado. O essencial, para nós, jovens da ilha, é viver dignamente”, conclui.

Passado, mas presente

O guia Mamadou Bailo Diallo realiza de um a dois passeios pela ilha diariamente.

Durante as visitas na Casa dos Escravos, ele menciona o líder sul-africano Nelson Mandela, que sofreu 27 anos de prisão durante o apartheid.

Mamadou relata que Mandela se emocionou ao visitar uma cela de punição de escravizados, e lágrimas são frequentemente vistas nos rostos dos visitantes.

“Notei que algumas pessoas brancas choram. A escravidão é uma vergonha para elas. É uma questão de humanidade”, ressalta o guia.

Gorée possui um marco em homenagem a Mandela, que se tornaria presidente da África do Sul após a visita, com uma inscrição inspiradora.

Reflexão e educação

O engenheiro civil Daouda Ndiaye, morador de Dacar, considera a ilha de grande importância para o Senegal e o continente africano.

“Este lugar é uma memória viva, um capítulo doloroso da história que deve ser preservado para o futuro”, declara.

“Visitar este espaço envolve uma consciência profunda sobre as consequências da escravidão e a defesa da dignidade humana”, conclui.

Além de servir como memória viva, Gorée funciona como uma sala de aula ao ar livre, com excursões escolares que transformam o turismo em educação.

Desses grupos de alunos emerge a alegria que agora ressoa na ilha, em contraste com o sofrimento do passado.

*O repórter viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Exterior.

Fonte: Agência Brasil

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Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

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