Dacar, a capital do Senegal, possui quase 4 milhões de habitantes na região metropolitana e é o ponto mais próximo das Américas, a apenas 2,9 mil quilômetros do Brasil. A cidade sediou o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, que ocorreu por dois dias, encerrando na terça-feira (21).
O evento contou com a presença de chefes de Estado e representantes de 38 países, dos quais 18 são africanos, além de membros de dez organismos internacionais, incluindo a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Europeia (UE). O Brasil foi representado pela embaixadora no Senegal, Daniella Xavier.
Durante a abertura, o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, ressaltou que Dacar representa uma capital do diálogo estratégico africano e internacional.
“É um espaço de reflexão e troca sobre como desenvolver soluções endógenas [internas] para os desafios de segurança do continente”, afirmou.
- Desafio da Política Externa do Brasil é a Defesa, afirma assessor de Lula
- G7: Lula solicitará apoio para desenvolvimento e reforma na governança global
- Lula relaciona protestos no México com manifestações brasileiras de 2013.
- Brasil firma pacto para permitir perseguição policial fora das fronteiras
- Três pessoas falecem no Quênia em protestos contra centro americano de ebola.
Além de diagnosticar desafios e propor soluções, o evento também visa reforçar o protagonismo do Senegal, um dos países mais estáveis da África. O Senegal busca estender sua influência internacional, especialmente com outras regiões do mundo, incluindo o Sul Global, que o Brasil também almeja integrar, conforme análises de especialistas em relações internacionais entrevistados pela Agência Brasil.
Histórico de paz e estabilidade
O diplomata Leonardo Santos Simão, chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, destacou a trajetória do Senegal na promoção da paz e estabilidade, sem qualquer golpe de Estado.
Ele observou que a África enfrenta períodos “conturbados” devido a conflitos internos, terrorismo e crime organizado.
A região do Sahel, marcada pela transição entre o deserto do Saara e as savanas, é vista como o epicentro do terrorismo internacional, ameaçada por grupos jihadistas, como Al-Qaeda e Estado Islâmico.
A edição de 2026 do Índice de Terrorismo Global revela que a região representa mais da metade das mortes por terrorismo no mundo em 2025, concentradas em Mali, Burkina Faso e Niger.
Outros países da região incluem Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Chade, Camarões e Nigéria.
>> Descubra como a África pretende enfrentar o terrorismo
“Senegal, por meio deste diálogo regular, oferece um espaço para a troca de ideias sobre como enfrentar os desafios atuais”, destacou o diplomata, que também mencionou a participação de representantes de países não africanos.
Sul Global
O representante da ONU ressalta que o Senegal integra o Sul Global, uma coalizão de nações em desenvolvimento que abordam problemas sociais comuns.
Simão observou que essa união serve para diagnosticar desafios comuns e promover o diálogo entre o Sul e o Norte Global (países desenvolvidos).
“Este Sul está cada vez mais unido”, afirmou. “Senegal se alinha a países como o Brasil nesse esforço de dar voz ao Sul Global em busca de soluções para problemas como pobreza e exclusão”, completou.
Ele acrescentou que a soberania dos países africanos é uma demanda crescente.
Os países do Norte precisam entender que “as relações do passado já não são aceitáveis e devem ser reavaliadas”, disse Simão.
Entre as delegações no Fórum estavam representantes de governos europeus com passado colonial, como Alemanha, Espanha, Portugal e França, que colonizou Senegal até 1960.
Soft power
O professor moçambicano Carlos Lucas Mamboza, especialista em Estudos Estratégicos, vê o fórum como uma clara demonstração de soft power.
No âmbito diplomático, soft power refere-se à capacidade de influenciar por meio da atração e persuasão, ao invés da coerção e do uso da força.
“Pretende projetar a imagem de um Estado estável, com instituições capacitadas para mediar conflitos na região do Sahel e na África, como um todo”, explicou Mamboza, diretamente de Maputo.
O tema do evento de 2026 é “África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?”
Para Mamboza, essa escolha reflete um dilema enfrentado pelos Estados africanos: a necessidade de equilibrar a estabilidade interna, os processos de integração regional e a preservação da soberania em um cenário internacional competitivo, especialmente entre grandes potências como China, Rússia e Estados Unidos.
O professor destaca que o evento cobre uma gama ampla de tópicos, incluindo mudanças climáticas, pandemias, crime transnacional, cibersegurança e tecnologia, refletindo um esforço do continente em se posicionar autonomamente na definição de suas prioridades estratégicas.
América do Sul
Mamboza observa que Senegal está em uma fase diplomática ligada à América do Sul e ao Brasil, sendo parte da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), aliança com mais de 20 países, com foco em manter a parte sul do Oceano Atlântico livre de guerras e disputas geopolíticas.
Recentemente, o Brasil assumiu a liderança deste grupo em um evento no Rio de Janeiro.
“Senegal se destaca como um elo importante entre a África Ocidental e o espaço estratégico do Atlântico Sul, alinhando-se diretamente aos interesses do Brasil”, afirmou Mamboza.
Ele reforça que isso representa uma cooperação Sul-Sul. Mamboza menciona a luta conjunta dos dois países por reformas na governança global, como no Conselho de Segurança da ONU, um objetivo antigo do Brasil e dos países africanos.
Atualmente, apenas cinco países têm assento permanente no conselho e direito de veto (Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França), sendo nenhum deles da América do Sul ou da África.
O Conselho de Segurança é responsável por impor sanções e permitir intervenções militares.
Estados Unidos
A liderança do Senegal foi reconhecida pelos Estados Unidos, conforme afirmou Richard Michaels, subsecretário adjunto do Departamento de Estado.
“A liderança do Senegal em questões de segurança regional demonstra o impacto transformador que os países africanos podem ter ao traçarem seu próprio caminho para o sucesso”, destacou.
“Celebramos uma nova fase de liderança africana, com atores nacionais e regionais enfrentando desafios continentais — econômicos, de segurança ou políticos”, complementou o diplomata.
Michaels também enfatizou que os Estados Unidos estão “redefinindo suas relações com parceiros africanos, agora baseadas em comércio mútuo, ao invés de ajuda e dependência”.
Minerais críticos
O representante americano destacou o interesse em participar da cadeia de exploração de minerais críticos, essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética.
“A África é o centro da corrida global por minerais críticos”, definiu o diplomata.
“Estamos colaborando com parceiros africanos para construir cadeias de suprimento seguras, transparentes e comercialmente viáveis, que assegurem que os países africanos obtenham maior valor de seus recursos”, concluiu.
* O repórter viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.
Fonte: Agência Brasil

