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Crianças de comunidade quilombola superam a escuridão para frequentar a escola em Goiás

Às 4h30 da manhã, com o som do Córrego da Inês ressoando a 50 metros de casa, o menino Aleandro, de 6 anos, se levanta entusiasmado para ir à escola. Ele organiza seu uniforme e se junta aos irmãos mais velhos, Alecssandro, de 7, e Tawane, de 15. Juntos, percorrem rapidamente uma subida de quase dois quilômetros, em meio à escuridão, por uma estrada estreita de chão de terra, pedras e cascalho no Cerrado.

Crianças da comunidade quilombola de Antinha de Baixo, na zona rural de Santo Antônio do Descoberto (GO), precisam apressar-se para não perder a kombi que parte às 6h10. O veículo leva pelo menos 12 crianças das imediações até as escolas municipais no centro da cidade, a cerca de 15 km dali. A situação já foi mais crítica.

Seu Joaquim é a pessoa mais velha da comunidade quilombola Antinha de Baixo – Valter Campanato/Agência Brasil

Os pais, os agricultores Roberto Braga, de 42 anos, e Mayara Soares, de 35, se orgulham da jornada dos filhos. Eles lembram que abandonaram os estudos por falta de apoio para chegar à cidade.

O avô, Joaquim Moreira, vive com a família na mesma casa em que nasceu há 87 anos. Ele observa as crianças indo para a escola e espera que as novas gerações não enfrentem as mesmas dificuldades do passado.

Brasília (DF), 26/03/2026 - Roberto Braga, morador do Quilombola Antinha de Baixo no Santo Antônio do Descoberto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Roberto Braga é morador do Quilombo Antinha de Baixo, no Santo Antônio do Descoberto, em Goiás – Valter Campanato/Agência Brasil

Raízes

Foi Seu Joaquim que, no ano passado, recebeu em Brasília (DF) o certificado de autorreconhecimento de comunidade remanescente de quilombo. Atualmente, cerca de 400 famílias residem no local.

>> Leia mais sobre as ameaças à comunidade

Esse documento trouxe esperança à comunidade após uma batalha judicial contra fazendeiros e grileiros que reivindicavam a posse do território.

Pelo menos três casas de quilombolas foram demolidas após decisões contrárias, mas uma ação do Supremo Tribunal Federal (STF) interrompeu os despejos. Os moradores também enfrentaram ameaças de homens armados.

Recentemente, profissionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) trabalharam na área para elaborar o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) de Antinha de Baixo.

Esse levantamento envolve estudos técnicos sobre características geográficas, históricas e etnográficas do território.

A conquista dos moradores foi celebrada, pois aproxima a possibilidade de demarcação e titulação do território. A certificação motiva a busca por políticas públicas que atendam as necessidades da comunidade, especialmente das famílias cujas crianças acordam cedo para ir à escola.

“Ainda é muito complicado para eles irem estudar”, afirma Mayara. O pai deseja que a estrada tenha iluminação. “Hoje é muito escuro”, lamenta.

Esperança

Para Aleandro e Alecssandro, a escola é o local para aprender e fazer amigos. Eles acreditam que vale a pena a caminhadas pela estrada de madrugada.

Aleandro mostra seu caderno com sílabas copiadas do quadro. A família espera que os meninos aprendam a ler ainda este ano.

As aulas terminam às 11h, mas eles só conseguem retornar para casa após as 13h30. Ninguém da comunidade pode estudar à tarde devido à falta de transporte. Nos dias de chuvas fortes, o transporte é praticamente inviável.

Roupa molhada

Tawane, a irmã mais velha, está na sétima série e já enfrentou dificuldades pelo caminho. Há três anos, para ir à escola, ela precisava atravessar um córrego para chegar ao transporte do centro da cidade, frequentemente chegando ao colégio com roupas molhadas. A mãe reclamou à prefeitura, que acabou disponibilizando um novo veículo.

“Eles não queriam vir buscar desse lado. Tínhamos que atravessar. Quando chovia à noite, era impossível ir para a escola”, conta Mayara. Hoje, a filha gosta de estudar português e ciências, sonhando em fazer faculdade (de veterinária), tornando-se a primeira da família a alcançar o ensino superior.

Do outro lado do rio, Débora, de 6 anos, também acorda cedo para ir à escola. Ela começa a aprender as letras e adora brincar de pega-pega com as amigas no recreio. No seu caderno, além das letras, faz desenhos de flores, como as que vê perto de casa. “Meu caderno é todo cheio de folhas”. Miguel, primo de Débora, também com 6 anos, gosta de jogar bola e se divertir com amigos na escola.

Três veículos transportam pelo menos 40 alunos da comunidade para as escolas, mas as crianças se sentem cansadas com as longas distâncias que precisam percorrer diariamente.

Lutas familiares

Brasília (DF), 26/03/2026 - Willianderson Moreira, morador do Quilombola Antinha de Baixo no Santo Antônio do Descoberto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Willianderson é o presidente da associação de famílias da comunidade quilombola Antinha de Baixo – Valter Campanato/Agência Brasil

O irmão de Débora, Willianderson Moreira, de 27 anos, é o presidente da associação das famílias. A associação recebeu registro oficial nesta semana, com 120 pessoas inscritas, que buscam melhorar as condições do lugar onde os ancestrais escravizados se refugiaram e resistiram.

“Quando o Incra fizer a desapropriação da área, será emitido um título particular para a associação administrar a região. Assim, os associados ficarão responsáveis por todo o território”, explica.

A expectativa da associação é que a demarcação e titulação do território ocorram em 2027.

Moreira destaca a importância de prioridades, como creche, escola, posto de saúde, iluminação, boas estradas, transporte, apoio à agricultura familiar e segurança.

A comunidade já protocolou ofício na prefeitura, contando com apoio da professora Railda Oliveira, ativista e líder comunitária em Santo Antônio do Descoberto, para encaminhar essas demandas.

Railda organizou os documentos e explicou que a proteção do modo de vida quilombola seria possível com a certificação.

“Essa comunidade enfrentou grandes dificuldades e esteve perto de ser retirada de sua terra. Hoje, começaram a respirar melhor”, afirma Railda.

A reportagem da Agência Brasil procurou informações com a prefeitura de Santo Antônio do Descoberto e com o governo de Goiás sobre as políticas públicas para a comunidade, mas até a publicação da matéria não obteve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações do poder público.

Brasília (DF), 26/03/2026 - Mayara Soares e seus familiares, moradores do Quilombola Antinha de Baixo no Santo Antônio do Descoberto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Mayara, o marido Roberto e os filhos Aleandro, Alecssandro e Tawane – Valter Campanato/Agência Brasil

Sem posto ou hospital

As famílias de Antinha de Baixo temem por febres que acometem crianças e idosos, pois não há transporte público, e o socorro depende da solidariedade daquelas poucas famílias com carro.

“Já tivemos que sair de madrugada em busca de ajuda para meus filhos e para meu pai”, conta Roberto Braga. Os agentes de saúde não visitam as casas, e o hospital mais próximo fica a 20 km da comunidade.

“Quem não tem carro e não consegue ajuda acaba apenas orando”, lamenta Willianderson Moreira.

Aqueles que trabalham na agricultura também precisam de apoio, embora a área ainda seja preservada. O Córrego da Inês, que já foi um rio na infância de Mayara e Roberto, está secando.

“O rio secou. Meu pai até retirava areia para vender, mas essa também acabou. Hoje, tudo é mais seco do que antes”, diz Mayara.

Roberto, embora não tenha estudado, recorda que a mata ao redor de sua casa era mais abundante do que é hoje.

“Hoje está tão seco que não há mais fruta-de-ema, bacupari, gabiroba… O que ainda existe é apenas o caju do cerrado. Meus filhos têm menos opções do que eu tive na infância.”

Esse problema pode estar associado não só a mudanças climáticas. A comunidade reclama que grileiros e fazendeiros que se estabeleceram na região usam agrotóxicos, prejudicando a mata nativa.

Apesar disso, as crianças não imaginam viver longe da liberdade do campo. Débora aprecia a plantação de milho perto de casa.

“É muito bom morar aqui. Temos várias atividades. Podemos debulhar o milho e, quando está pronto, fazer pamonha”, sorri a menina.

A mãe de Débora e Willianderson, Rejane Moreira, de 41 anos, também nasceu e cresceu na mesma casa, e lamenta não ter podido estudar depois que a escola rural deixou de oferecer vagas. “Completei apenas até a quarta série”.

Brasília (DF), 26/03/2026 - Crianças em frente à plantação de milho no Quilombola Antinha de Baixo no Santo Antônio do Descoberto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Crianças da comunidade em frente à plantação de milho – Valter Campanato/Agência Brasil

Provas

A moradora Ana Clity Vieira, de 57 anos, também busca concluir seus estudos. Ela participa de um curso do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) no centro de Santo Antônio do Descoberto.

Quando a reportagem da Agência Brasil chegou, Ana estava desolada por não ter conseguido fazer provas para avançar da sétima série. Não tinha transporte para ir ao centro. Quando consegue ir estudar, pede para dormir na casa de colegas de sala, já que não consegue voltar.

No ano passado, quando fazendeiros tentaram a desapropriação dos quilombolas, a casa de Ana escapou de ser demolida porque seguranças a usaram como ponto de apoio: “Fui a primeira pessoa expulsa”.

Ela precisou se refugiar em uma casa no centro, pagando aluguel e se endividando. Após a decisão do STF, voltou para sua casa e hoje vende produtos que planta para sobreviver.

“Aqui eu posso criar minhas galinhas, plantar o açafrão e fazer azeite de mamona para vender.”

Ana vende produtos da terra para realizar dois sonhos: montar uma loja e escrever um livro sobre sua vida. O livro abordará seu desejo de aprender e as dores enfrentadas na infância, como a faminta após o abandono do pai que deixou ela e seus cinco irmãos. O título, ainda não escrito, será Resistência. O outro sonho é o da terra.

Brasília (DF), 26/03/2026 - Ana Clity Vieira, moradora do Quilombola Antinha de Baixo no Santo Antônio do Descoberto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Ana Clity Vieira pretende terminar os estudos sem deixar a comunidade de Antinha de Baixo – Valter Campanato/Agência Brasil

Entre lágrimas sobre seu caderno, estão as lembranças da perda de uma irmã atropelada. Com a indenização, conseguiu construir sua casa. As dores da infância, em especial a fome, ainda a marcam, pois seu pai abandonou a mãe e os cinco filhos. O título do livro já tem nome: Resistência, assim como o que ela almeja: o título da terra.

Brasília (DF), 26/03/2026 - Jéssica Gonçalvez, moradora do Quilombola Antinha de Baixo no Santo Antônio do Descoberto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Jéssica e o pequeno Henrique, o mais novo integrante do Quilombo Antinha de Baixo, com 8 meses – Valter Campanato/Agência Brasil

Perto dali, Jéssica Gonçalves, de 35 anos, é mãe de Henrique, o mais novo da comunidade, com 8 meses. Sem creche próxima, Jéssica não consegue realizar outra atividade além de cuidar do bebê.

Ela deseja que seu filho cresça livre, em um território demarcado e seguro. “Que ele tenha acesso a tudo o que não tivemos”, diz. Jéssica acredita que é essencial que Henrique conheça a história da comunidade e as lutas enfrentadas para conquistar melhores dias.

Fonte: Agência Brasil

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Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

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