A campanha da seleção brasileira feminina no Torneio Experimental da Fifa, realizado na China em 1988 — precursor da Copa do Mundo da modalidade — é retratada no documentário Brasil 88: Depois do Silêncio, lançado nesta terça-feira (23) no Cine Brasília.
Produzido pelo Ministério do Esporte, o filme recorda a trajetória das primeiras jogadoras brasileiras a receberem reconhecimento internacional e evidencia o papel da equipe na evolução do futebol feminino no país.
Brasil 88: Depois do Silêncio inclui imagens de arquivo e depoimentos das atletas, mostrando como a seleção conquistou o terceiro lugar diante de dificuldades estruturais e um contexto de forte preconceito.
Entre 1941 e o início da década de 1980, o futebol feminino foi banido no Brasil. Mesmo após a liberação, as jogadoras enfrentavam falta de apoio financeiro e visibilidade.
O documentário faz parte das ações da Semana Nacional do Esporte, que se conecta com a Copa do Mundo feminina de 2027, a ser realizada no Brasil. A iniciativa visa preservar a memória das atletas e conectar novas gerações a uma história que marcou o início da modalidade no país.
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Campanha na China
A participação brasileira no torneio de 1988 começou com uma derrota por 1 a 0 para a Austrália. No jogo seguinte, a equipe ganhou ritmo ao vencer a Noruega por 2 a 1 — um adversário considerado forte.
Na sequência, a seleção goleou a Tailândia por 9 a 0, garantindo a classificação. Nas quartas de final, derrotou a Holanda por 2 a 1. Na semifinal, enfrentou novamente a Noruega, mas perdeu por 2 a 1, ficando fora da final.
No jogo pelo terceiro lugar, empatou em 0 a 0 com a China, e, após uma disputa de pênaltis, a seleção feminina conquistou a medalha de bronze.
Relatos das jogadoras
Treze atletas que participaram da campanha estiveram presentes no evento em Brasília, destacando o espírito de superação da equipe e as adversidades enfrentadas.
Artilheira do torneio, Cebola afirmou que o resultado foi fruto da dedicação do grupo e que poderia ter sido melhor com mais apoio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
“Não nos ajudaram com nada. Foi tudo na raça, diante de muito preconceito”, afirmou a primeira artilheira de uma competição feminina da Fifa, com seis gols no torneio – cinco deles na goleada sobre a Tailândia.
A atacante Michael Jackson destacou o entrosamento do grupo e a qualidade técnica da equipe. Por sua vez, a capitã Caju ressaltou que a trajetória representa a capacidade das mulheres de conquistar espaços no esporte.
“Foi uma equipe que jogava com amor e vontade de vencer, mesmo em um período em que mulheres não podiam jogar futebol”, declarou.
Outras jogadoras compartilharam dificuldades do período. Russa mencionou que esperavam maior reconhecimento após a competição, e Fia Paulista revelou ter abandonado a carreira por falta de condições financeiras. Suzana ressaltou que, à época, jogar futebol era visto como uma afronta social.
Sissi afirmou que a realização da Copa do Mundo de 2027 no Brasil representará a concretização de um sonho daquela geração.
Reconhecimento
Durante o lançamento do filme, o ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, sublinhou a importância histórica das jogadoras.
“O governo reconhece a luta e o significado de vocês para o nosso povo. Se os homens desbravaram o futebol brasileiro na década de 1930, vocês o fizeram na de 1980. Agora vamos trabalhar pela igualdade de condições entre mulheres e homens”, declarou.
O ministro também expressou a intenção de criar uma contribuição especial para garantir melhores condições de vida às atletas pioneiras.
A secretária extraordinária para a Copa do Mundo feminina de 2027, Juliana Agatte, enfatizou o papel do filme no resgate da memória.
“Falar de passado é falar de história. Falar de história é reconhecer. Esse filme mostra um pouco da trajetória dessas mulheres pioneiras do futebol feminino brasileiro”, afirmou, defendendo maior presença feminina na gestão do esporte.
Impacto entre estudantes
A sessão no Cine Brasília contou com a presença de cerca de 200 estudantes da rede pública do Distrito Federal, incluindo integrantes de equipes de base do futsal.
A estudante Sofia Mendes, da equipe Elite, comentou que o filme confirmou relatos de sua mãe, uma ex-jogadora, sobre a seleção de 1988. “Elas eram guerreiras que não desistiam nunca”, afirmou.
Sarah Gabrielly, de 12 anos, ressaltou que o filme exemplifica como o esporte pode contribuir para a formação pessoal.
“Elas jogaram em um contexto difícil. O futebol ensina a superar desafios”, disse.
Brasil 88: Depois do Silêncio
O documentário Brasil 88: Depois do Silêncio ressalta a relevância da geração de 1988 na consolidação do futebol feminino brasileiro.
A condição das jogadoras — marcada pela ausência de estrutura e superação — é apresentada como fundamento para o avanço da modalidade nas décadas posteriores.
Segundo o Ministério do Esporte, ao resgatar essa história, o filme contribui para ampliar o reconhecimento das pioneiras e valorizar a presença feminina no esporte.
Fonte: Agência Brasil

