InícioBrasilSaúdeCanetas emagrecedoras podem fortalecer a "economia moral da magreza"

Canetas emagrecedoras podem fortalecer a “economia moral da magreza”

A popularização dos medicamentos subcutâneos para o tratamento da obesidade, conhecidos como canetas emagrecedoras, tem gerado intensos debates. Além de produzirem efeitos significativos e serem respaldados por diversas sociedades médicas, esses medicamentos têm sido utilizados sem acompanhamento profissional ou por pessoas que não apresentam obesidade.

Fernanda Scagluiza, professora das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o apelo das canetas advém da “economia moral da magreza”. Ela foi uma das entrevistadas do episódio O boom das canetas emagrecedoras, exibido no programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil.

Confira a entrevista para o Caminhos da Reportagem

Caminhos da Reportagem: O que é a economia moral da magreza? Como ela se traduz em violência contra pessoas gordas?

Fernanda Scagluiza: A economia moral refere-se à atribuição de significados diferentes a certos corpos. Um corpo magro é visto como virtuoso, de alguém que se esforçou, enquanto um corpo gordo é associado a preguiça e falta de disciplina, perpetuando estereótipos perigosos.

As pessoas que têm um corpo magro desfrutam de mais privilégios sociais, enquanto as gordas enfrentam opressão e exclusão.

Caminhos da Reportagem: De onde vêm esses padrões?

Fernanda Scagluiza: Padrões de beleza existem há muito tempo, mas sempre que se estabelece um padrão, a diversidade é restringida. Padrões de magreza extrema ou muscularidade acabam excluindo uma grande parte da população, alimentando indústrias que vendem soluções para isso.

Caminhos da Reportagem: Podemos dizer que, hoje, nunca se é magro o suficiente?

Fernanda Scagluiza: Sim, e toda gordura será castigada. As pessoas com corpos maiores estão em um sistema de gordofobia que impõe humilhação e opressão. Mesmo quem não é gordo enfrenta a pressão pela magreza, especialmente mulheres, que são mais afetadas.

Caminhos da Reportagem: Está havendo um retrocesso na luta contra a cultura da magreza extrema com o auge das canetas emagrecedoras?

Fernanda Scagluiza: Sim, embora tenhamos visto avanços desde os anos 2010 com o movimento de positividade corporal, muitas dessas conquistas foram feitas à custa de pressões. Agora, parece que as indústrias estão felizes em retornar ao padrão de magreza extrema, o que é preocupante, especialmente para crianças e adolescentes.

Caminhos da Reportagem: Como essa febre das canetas emagrecedoras influencia as conquistas das mulheres?

Fernanda Scagluiza: Estamos em um momento temeroso para as mulheres, cercadas por um movimento conservador que as desvia de lutas importantes, ao se preocuparem excessivamente com seus corpos e emagrecimento.

Caminhos da Reportagem: Você menciona que estamos vivendo a medicalização do corpo saudável por padrões estéticos. Poderia elaborar sobre isso e os efeitos na saúde mental?

Fernanda Scagluiza: A medicalização trata de quando aspectos sociais se tornam questões médicas. A alimentação, que sempre foi sociocultural, agora é vista como remédio. Esse conceito distorce a relação das pessoas com a comida, levando a práticas prejudiciais, como restringir a alimentação por conta de efeitos colaterais de medicamentos, o que pode ser perigoso para a saúde e a vida em sociedade.

A alimentação saudável é um direito humano e está relacionada ao bem-estar e prevenção de doenças. Seu significado pode se perder nesse processo.

Assista ao programa completo no YouTube da TV Brasil

Fonte: Agência Brasil

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Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

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