O filósofo Vladimir Safatle critica aqueles que evitam classificar os movimentos autoritários da extrema direita contemporânea como fascistas. Ele argumenta que é necessário perder o medo de nomear esse fenômeno e considerar que seus apoiadores fazem um cálculo racional: “Não tem mais sociedade para todo mundo, não tem mais espaço para todo mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu”, explica em entrevista à Agência Brasil.
Autor de A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, Safatle participará do debate Novos Fascismos Globais, no próximo sábado (6), durante a programação da Feira do Livro em São Paulo.
Segundo Safatle, formas de violência típicas de estruturas fascistas foram naturalizadas em democracias liberais, em contextos que envolvem certos grupos e territórios. Ele propõe uma reflexão acadêmica sobre a evolução do conceito de fascismo, que não deve se restringir ao autoritarismo da década de 1930 na Itália.
“Uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há um fascismo que é parte de nossa história acabam sendo cúmplices desse processo”, afirma Safatle.
Principais trechos da entrevista
Agência Brasil: O que você pode dizer sobre a evolução e aplicação do conceito de fascismo?
- PL ficará com a maior fatia do fundo eleitoral para as campanhas do TSE.
- Brasil buscará novos aliados para minimizar impactos comerciais.
- Alcolumbre sugere melhorias na PEC que extingue a escala 6×1 e defende análise nas comissões.
- Lula atribui ao clã Bolsonaro ataque dos EUA ao Pix e à taxação
- Lula defende o Pix e expressa preocupação dos Estados Unidos com o sistema brasileiro.
Vladimir Safatle: O uso do termo fascismo é essencial para entender as formas de autoritarismo contemporâneo. O conceito sempre foi restringido a um fenômeno histórico específico dos anos 1930, mas isso representa uma decisão política. Isso impede que se perceba como nossas democracias liberais naturalizam, em certos contextos, práticas de violência que são características de estruturas fascistas.
Prefiro falar de fascismos restritos que, em tempos de crise, se generalizam. Esses fascismos aplicam violências sistemáticas contra determinados grupos sociais e em certas circunstâncias.
Agência Brasil: O que o conceito de fascismo significa historicamente e como pode ser caracterizado no Brasil contemporâneo?
Vladimir Safatle: A violência do fascismo histórico é uma derivação da violência colonial. Os métodos utilizados pelo fascismo foram inicialmente desenvolvidos em contextos coloniais. Países com forte histórico colonial, como o Brasil, replicam essas formas de violência na relação do Estado com certas populações. É impossível discutir democracia sem questionar a perspectiva de quem estamos falando.
Na perspectiva de alguém que vive em Higienópolis, a democracia é viável, pois eu sei que a polícia não vai invadir minha casa sem justificativa. Porém, em contextos como o do Complexo do Alemão, onde as vidas não são dignificadas, a democracia não existe.
Agência Brasil: Quais seriam as características do fascismo no Brasil e suas manifestações na rotina democrática?
Vladimir Safatle: Existem estruturas de violência e segregação explícitas, em que o Estado protege certos setores e desampara outros. Mesmo em países europeus, que são considerados exemplos de democracia liberal, a lógica colonial ainda está presente. A crise do capitalismo tende a levar esses países a aplicar níveis de violência semelhantes aos que aplicavam em suas colônias.
Precisamos entender o fascismo como uma forma de violência, que apresenta gradações que se intensificam conforme a dinâmica interna da sociedade e a lógica de crise.
Agência Brasil: O fascismo está necessariamente ligado à extrema direita?
Vladimir Safatle: Sim. Embora haja violências na esquerda, elas não podem ser equiparadas à violência fascista. A principal diferença é que a violência do stalinismo busca preservar o Estado, enquanto a violência fascista possui uma lógica autodestrutiva que pode levar ao colapso do próprio Estado.
A violência fascista cria uma guerra permanente que demanda sacrifícios contínuos da sociedade, uma mobilização que não apenas preserva o Estado, mas transforma a sociedade em uma dinâmica de constante conflito.
Agência Brasil: O conceito de fascismo é relevante para compreender a realidade brasileira atual?
Vladimir Safatle: Diante das crises ecológicas, há a escolha de administrá-las ou tratá-las como normais. O Brasil exemplifica a naturalização da destruição e do sacrifício social. O que a gestão da pandemia revelou foi uma dinâmica de expor a população a uma maior mortalidade, que ecoa princípios fascistas.
Agência Brasil: O que deve ser feito para suprimir a disposição fascista nas democracias liberais?
Vladimir Safatle: Primeiro, precisamos entender o fenômeno e não temer nomeá-lo. Segundo, é crucial reconhecer que a opção fascista não é uma regressão psicológica, mas uma escolha racional de pessoas que acreditam que não há mais espaço para todos na sociedade. Essa lógica gera uma dessensibilização social, onde as tragedias alheias não são vistas como parte da tragédia coletiva.
Os partidos políticos e atores sociais devem compreender como chegamos a um momento em que ser fascista parece racional e trabalhar para apresentar alternativas que mostrem que não estamos condenados a isso.
Agência Brasil: Por que há resistência entre intelectuais e pesquisadores para usar o termo fascismo em relação à sociedade brasileira?
Vladimir Safatle: O Brasil teve um dos maiores partidos fascistas fora da Europa, a Ação Integralista Nacional, que influenciou o golpe e a ditadura militar. A história do fascismo é parte constitutiva do Brasil. A universidade precisa fazer uma autocrítica profunda sobre essa realidade e como foi capaz de ignorá-la por tanto tempo.
A recusa de muitos intelectuais em considerar o fascismo como uma parte da história nacional os torna cúmplices do processo de violência social que enfrentamos.
Fonte: Agência Brasil

