A moradora Maria Lopes da Silva vive há 25 anos no assentamento trabalhando com agricultura. (Foto: Divulgação)

Nos inúmeros assentamentos espalhados por todo o país, provenientes de áreas devolutas ou sem produtividade, vivem famílias que, em sua maior parte, produzem legumes, hortaliças, frutas e criam animais de pequeno porte para consumo próprio e para comercialização. Em Açailândia, existem hoje cerca de 36 assentamentos e dois acampamentos. Um deles é o assentamento Califórnia, local escolhido para o desenvolvimento do projeto de extensão do curso de Letras, Língua Portuguesa e Literaturas da Língua Portuguesa, do Centro de Ciências Humanas, Sociais, Tecnológicas e Letras (CCHSTL), da UEMASUL, campus Açailândia.

O projeto “Memórias de Gaia: a história do Assentamento Califórnia (Açailândia – MA) contada pelas mulheres camponesas” ouviu 10 mulheres de idades variadas, com o objetivo de registrar as memórias das mulheres que vivenciaram o início do assentamento e sobre a vida cotidiana dentro da comunidade.

O assentamento Califórnia, ocupado inicialmente por cerca de 250 famílias, em 1996, tem raízes na luta de trabalhadores e trabalhadoras rurais organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O assentamento, localizado às margens da BR-010, a 14 km do município de Açailândia, compreende uma área total de 5.800 hectares e abriga hoje 242 famílias, somando um total de 726 habitantes. Na comunidade existe uma escola, um posto de saúde, igrejas, comércios variados e outras estruturas necessárias para a vida em comunidade.

Sob orientação da professora Gabriela Guimarães Jerônimo, o desenvolvimento das atividades do projeto conta com a acadêmica bolsista Carla Carneiro de Sousa e duas acadêmicas voluntárias, Nicole Lorrane Lago e Mariana Ribeiro Morais, todas do sexto período do curso de Letras/Língua Portuguesa. O projeto tem o apoio e parceria do professor Francisco Andrade, uma das lideranças do assentamento.

As acadêmicas Carla Carneiro, Nicole Lorrane Lago, Mariana Ribeiro, professora Gabriela Guimarães e a liderança do assentamento, professor Francisco Andrade. (Foto: Divulgação)

De acordo com o projeto, a escolha pelas mulheres está pautada no fato histórico de que elas foram e ainda são muito silenciadas, especialmente as que viveram em um tempo no qual as discussões feministas não eram conhecidas, e as mulheres ainda mais oprimidas. A pesquisa criou condições de escuta necessárias para que as mulheres pudessem contar suas histórias pessoais e sobre o assentamento Califórnia, como explicou professora Gabriela, ao falar sobre a ideia do projeto, a de escutar especificamente as mulheres. “Esse projeto veio de uma necessidade urgente de olharmos para as comunidades locais, especialmente para as mulheres que vivem nessas comunidades. Como sabemos, as mulheres sempre foram e ainda são extremamente silenciadas por uma sociedade machista”.

O momento da pesquisa de campo, escutando as mulheres, foi de extrema importância, conforme explica a professora. “Termos a oportunidade de conhecer a história dessas mulheres e do assentamento Califórnia, que faz parte da história de Açailândia e da Região Tocantina do Maranhão, é ter acesso a outras histórias e, através dessas condições de escuta, contribuir para que essas outras histórias ocupem o mesmo lugar que ocupam os livros de história oficiais”.

O projeto Memórias de Gaia começou a ser desenvolvido em fevereiro de 2021 e o trabalho de pesquisa de campo já foi finalizado. Foram realizadas cinco visitas ao assentamento para o registro das conversas com dez mulheres, entre 40 e 60 anos, de profissões variadas. As entrevistas foram narrativas livres. 

A agricultora Rosimar Gomes da Silva mora no assentamento há 21 anos, trabalhando na terra para sustento da família. (Foto: Divulgação)

A acadêmica voluntária Nicole Lorrane Lago Araújo falou sobre a importância da vivência junto à comunidade do assentamento. “Não fomos lá apenas para preencher currículo, e sim para aprender e escutar histórias de pessoas que são ricas em conhecimentos e ações inspiradoras, seja com relação a cuidados com a terra ou ideias que percorrem um viés pedagógico. Pessoas que acendem uma faísca de aprendizado em quem quiser e puder ouvi-las”.

Para a acadêmica bolsista Carla Carneiro de Sousa, um dos objetivos da pesquisa é o de trazer protagonismo para as mulheres. “Este é um trabalho desenvolvido por mulheres e para mulheres. Vamos conhecer cada uma. Cada mulher é um mundo com sua história de vida para contar que se entrelaçam com a história do assentamento. Essa escuta irá valorizar a cultura, a luta pela terra e a desconstrução dos estereótipos em torno das pessoas que vivem em assentamentos. Queremos trazer protagonismo a essas mulheres, por meio das perspectivas delas sobre o início do assentamento Califórnia”.

Algumas lideranças da comunidade estão construindo registros da história baseadas nas memórias dos moradores do assentamento, e o projeto de extensão, por meio da pesquisa de campo, em parceria com o professor Francisco Andrade, irá contribuir com esse trabalho. Todo o material audiovisual coletado durante a pesquisa de campo será entregue à comunidade para integrar o registro que já vem sendo construído sobre a história e a memória do assentamento.

Além da elaboração e submissão de artigos em revistas científicas, a equipe que trabalha no projeto de extensão pretende produzir um documentário a partir do material coletado, com previsão de entrega em janeiro de 2022. Serão ainda produzidos materiais impressos e  publicações online, para atender as comunidades do assentamento Califórnia e de Açailândia.

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Fonte: Agência de Notícias do Maranhão