“Fui torturado por quatro dias. Quase sem parar. Não saí da câmara de tortura.”
Jean Marc Von der Weid, um jovem estudante brasileiro exilado na Suíça, descreve as sessões de tortura que sofreu enquanto preso no Brasil, entre agosto de 1969 e janeiro de 1971, em entrevista à RTS, emissora pública suíça.
Ele foi um dos 70 presos políticos libertados em troca do embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher, no mais longo sequestro de um diplomata registrado no Brasil. Aproveitando seu exílio, denunciou as violações no Brasil e detalhou técnicas de tortura utilizadas pela ditadura:
“Pau de arara. Você é pendurado pelos pés, pelas mãos e de cabeça para baixo. Nessa posição, me aplicavam choques, golpes com cassetetes e o ‘telefone’, golpes simultâneos nas orelhas. Também sofri tortura hidráulica, com água sendo forçada no meu nariz, além de queimaduras com cigarros.”
>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp
- Caminhada em São Paulo reúne mulheres lésbicas e bissexuais contra a violência
- Desemprego entre jovens mulheres negras chega a 24,7%, aponta estudo.
- Governo inicia campanha para promover a visibilidade e os direitos LGBTQIA+
- Mais de 70 mulheres sofreram cassação de mandato em uma década no país.
- Senado revoga norma sobre aborto legal para crianças vítimas de estupro
Após chegar à Europa, Jean Marc iniciou uma maratona de eventos, palestras e entrevistas para mostrar à opinião pública europeia a realidade do Brasil durante o milagre econômico. A sua movimentação incomodou o governo suíço, que mantinha laços econômicos com o regime militar no Brasil.
Gaelle Shclier, pesquisadora da Universidade de Lausanne, estudou a atuação de ativistas brasileiros e a resposta do governo suíço:
“Esses eventos eram monitorados pela polícia”. Ela obteve relatórios que comprovam a vigilância e compartilhou um deles com a nossa reportagem.
Um relatório de 9 de março de 1971, com 36 páginas, dirigido ao chefe da polícia de Lausanne, transcreve palestras feitas por ativistas na conferência Brasil, a democratização da tortura. O discurso de Jean Marc é o primeiro do relatório:
“Não há limitação, no Brasil, quanto às pessoas torturadas. Você pode ter crianças que são torturadas. Havia um menino, de 14 anos e paralisia infantil, que foi torturado para fazer sua mãe falar.”
O documento também contém informações sobre quem organizou o encontro, cartazes com mensagens como “12.000 presos políticos” e “A tortura é indispensável ao poder militar”, além de mencionar empresas suíças que lucravam com a política do governo suíço em relação ao regime militar no Brasil.
Gaelle observa que a atuação de Jean Marc contrastava com eventos promovidos por empresas e pelo governo suíço:
“A comunidade empresarial tinha interesses no Brasil. Aqui na Suíça, eles organizavam jornadas culturais e econômicas para promover uma imagem positiva do país e ganhar apoio público para a ditadura. Roberto Campos, por exemplo, veio várias vezes dar palestras.”
Gabriella Lima, também pesquisadora na Universidade de Lausanne, concorda que a presença de ativistas era incômoda:
“Esses movimentos de solidariedade apresentavam riscos aos interesses deles no Brasil, porque a opinião pública suíça poderia pedir um boicote a qualquer momento, como ocorreu na África do Sul.”
Suíça sabia
Para Gaelle, os relatórios policiais confirmam que o governo suíço não apenas monitorava ativistas brasileiros, mas também sabia das violações que ocorriam no Brasil.
“Em cartas e relatórios, fica claro que eles sabiam da violência policial no Brasil. Eles tinham conhecimento do que acontecia.”
Correspondências diplomáticas também evidenciam a cumplicidade da Suíça. Um documento de outubro de 1973, assinado pelo cônsul suíço no Rio de Janeiro, Marcel Guelat, confirma que o Estado brasileiro cometia crimes:
“O Dops, conhecido por sua brutalidade, e certas unidades do exército que conduzem processos sobre atividades subversivas recorrem a métodos de tortura: maus-tratos, queimaduras, choques elétricos, câmara fria, etc.”
O documento alerta que a violência contra os opositores do regime era conhecida nas altas esferas do governo brasileiro:
“Dada a disciplina militar, é improvável que esses fatos sejam ignorados nas altas esferas.”
Apesar dos relatórios, a Suíça manteve boas relações com o governo ditatorial e passou a perseguir ativistas brasileiros. Jean, com dupla nacionalidade, não foi expulso, ao contrário de outros exilados como Apolônio de Carvalho e Ladislau Dowbor, que tiveram seus vistos cassados por suposta quebra de neutralidade.
Em um informe de novembro de 1970, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil celebrou a expulsão dos ativistas, afirmando que foi resultado das relações econômicas entre os dois países:
“A rapidez da expulsão dos terroristas deve-se à firmeza com que reclamamos do governo suíço e alertamos sobre os danos que isso causaria a nossas relações políticas e econômicas.”
Nunca houve ruptura política ou econômica da Suíça com a ditadura brasileira. Questionamos a embaixada da Suíça no Brasil sobre essa postura e eles responderam que “uma resposta detalhada exigiria análises que não são possíveis no âmbito da administração federal suíça, pois demandam pesquisas históricas aprofundadas.” A nota também “saúda” estudos independentes para aprimorar o entendimento sobre o passado e o debate.
A reportagem faz parte do projeto Perdas e Danos, que investiga a ditadura militar e está em sua segunda temporada. Detalhes sobre as relações diplomáticas entre a Suíça e o Brasil estão no episódio 1 da 2ª temporada: Relógio Suíço.
Fonte: Agência Brasil

