A popularização dos medicamentos subcutâneos para o tratamento da obesidade, conhecidos como canetas emagrecedoras, tem gerado intensos debates. Além de produzirem efeitos significativos e serem respaldados por diversas sociedades médicas, esses medicamentos têm sido utilizados sem acompanhamento profissional ou por pessoas que não apresentam obesidade.
Fernanda Scagluiza, professora das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o apelo das canetas advém da “economia moral da magreza”. Ela foi uma das entrevistadas do episódio O boom das canetas emagrecedoras, exibido no programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil.
Confira a entrevista para o Caminhos da Reportagem
Caminhos da Reportagem: O que é a economia moral da magreza? Como ela se traduz em violência contra pessoas gordas?
Fernanda Scagluiza: A economia moral refere-se à atribuição de significados diferentes a certos corpos. Um corpo magro é visto como virtuoso, de alguém que se esforçou, enquanto um corpo gordo é associado a preguiça e falta de disciplina, perpetuando estereótipos perigosos.
As pessoas que têm um corpo magro desfrutam de mais privilégios sociais, enquanto as gordas enfrentam opressão e exclusão.
🔥 LEIA TAMBÉM
- Vacinação com Pneumocócica 20 pelo SUS começará em duas semanas, informa Padilha
- Um em cada quatro brasileiros ignora a possibilidade de prevenção do câncer.
- Anvisa solicita recolhimento voluntário de lote da água Crystal sem gás
- Estado de São Paulo registra quinta morte por febre amarela em 2026
- Anvisa interrompe distribuição de medicamentos para hipertensão e câncer de mama
Caminhos da Reportagem: De onde vêm esses padrões?
Fernanda Scagluiza: Padrões de beleza existem há muito tempo, mas sempre que se estabelece um padrão, a diversidade é restringida. Padrões de magreza extrema ou muscularidade acabam excluindo uma grande parte da população, alimentando indústrias que vendem soluções para isso.
Caminhos da Reportagem: Podemos dizer que, hoje, nunca se é magro o suficiente?
Fernanda Scagluiza: Sim, e toda gordura será castigada. As pessoas com corpos maiores estão em um sistema de gordofobia que impõe humilhação e opressão. Mesmo quem não é gordo enfrenta a pressão pela magreza, especialmente mulheres, que são mais afetadas.
Caminhos da Reportagem: Está havendo um retrocesso na luta contra a cultura da magreza extrema com o auge das canetas emagrecedoras?
Fernanda Scagluiza: Sim, embora tenhamos visto avanços desde os anos 2010 com o movimento de positividade corporal, muitas dessas conquistas foram feitas à custa de pressões. Agora, parece que as indústrias estão felizes em retornar ao padrão de magreza extrema, o que é preocupante, especialmente para crianças e adolescentes.
Caminhos da Reportagem: Como essa febre das canetas emagrecedoras influencia as conquistas das mulheres?
Fernanda Scagluiza: Estamos em um momento temeroso para as mulheres, cercadas por um movimento conservador que as desvia de lutas importantes, ao se preocuparem excessivamente com seus corpos e emagrecimento.
Caminhos da Reportagem: Você menciona que estamos vivendo a medicalização do corpo saudável por padrões estéticos. Poderia elaborar sobre isso e os efeitos na saúde mental?
Fernanda Scagluiza: A medicalização trata de quando aspectos sociais se tornam questões médicas. A alimentação, que sempre foi sociocultural, agora é vista como remédio. Esse conceito distorce a relação das pessoas com a comida, levando a práticas prejudiciais, como restringir a alimentação por conta de efeitos colaterais de medicamentos, o que pode ser perigoso para a saúde e a vida em sociedade.
A alimentação saudável é um direito humano e está relacionada ao bem-estar e prevenção de doenças. Seu significado pode se perder nesse processo.
Assista ao programa completo no YouTube da TV Brasil
Fonte: Agência Brasil

