InícioBrasilDireitos HumanosMaré recebe melhorias no esgoto, mas enfrenta desafios com drenagem e lixo.

Maré recebe melhorias no esgoto, mas enfrenta desafios com drenagem e lixo.

“Olha a marca aqui na parede.” Cláudia da Costa Tavares da Silva, de 63 anos, mostra a altura de cerca de 1 metro (m) que a água alcançou dentro de sua casa, ilustrando o impacto dos alagamentos no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Durante as chuvas, sua rotina se torna uma corrida contra o tempo: proteger a mãe, uma senhora de 86 anos com Alzheimer, empilhar móveis e enfrentar a água suja que retorna do esgoto.

Moradores da Maré, um complexo de 16 favelas com 200 mil habitantes, lidam com alagamentos há anos. O descarte irregular de esgoto na rede pluvial, o acúmulo de lixo que obstrui bueiros e canais, além de uma drenagem deficiente, formam cenas de casas alagadas e pessoas nas ruas com água na cintura.

A concessionária Águas do Rio anunciou, em março, investimentos de R$ 120 milhões para ampliar a rede de esgoto e mitigar a situação. A solução definitiva, entretanto, requer ações integradas da prefeitura, segundo a organização social Redes da Maré. A Prefeitura do Rio de Janeiro afirmou estar discutindo com a comunidade “a elaboração de projetos de infraestrutura”, mas não especificou soluções de curto prazo.

Cláudia da Costa mora em frente às obras de tratamento de esgoto na comunidade Rubens Vaz – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Cláudia, que reside na região há quase seis décadas, relata que a família se adapta à situação. Nos primeiros anos, aterrou o terreno e, depois, instalou batentes nas portas. Apesar dessas intervenções, elas têm sido insuficientes, pois o volume de chuvas aumenta a cada ano.

“Quando enche, a gente tem que botar tudo em cima da cama. A água vem pelo banheiro, pelo esgoto. É horrível aquela água suja”, compartilha Cláudia.

O medo vai além da perda de bens, envolvendo também riscos à saúde. “Vem doença, sujeira, insetos, rato. Tenho pavor de rato. Já apareceu aqui”, conta.

Funcionários da Águas do Rio trabalham em obra de infraestrutura de tratamento de esgoto na comunidade Parque Rubens Vaz. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Funcionários da Águas do Rio trabalham em obra de tratamento de esgoto na comunidade Rubens Vaz – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

No Complexo da Maré, uma rede antiga de esgoto conecta algumas casas, mas muitas não estão ligadas a ela. Por ser uma solução mais simples, as residências acabam acoplando esgotos nas galerias pluviais, que são mais superficiais. Esse procedimento entope os canais responsáveis pelo escoamento das águas da chuva, agravando as enchentes. Além disso, há canaletas quebradas e lixo entupindo bueiros.

A conexão do esgoto à rede e seu tratamento é determinado pela Lei Nacional de Saneamento Básico de 2007. No entanto, milhares de litros de esgoto da Maré vão direto para canais que deságuam na Baía de Guanabara. Projetos de despoluição da baía têm enfrentado problemas desde os anos 90.

Em uma tentativa de evitar o despejo, a concessionária Águas do Rio anunciou investimentos inéditos na Maré. Os planos incluem a intensificação da ligação de residências à rede de abastecimento de água e esgoto e a instalação de 18 quilômetros de nova tubulação. A intenção é substituir canos que ainda estão conectados às galerias em becos e vielas, eliminando esgotos a céu aberto.

Funcionários da Águas do Rio trabalham em obra de infraestrutura de tratamento de esgoto na comunidade Parque Rubens Vaz. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Concessionária Águas do Rio anunciou investimentos de R$ 120 milhões para ampliar a rede de esgoto na Maré – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A intervenção inclui a instalação de um duto de 1,5 m de diâmetro sob a principal rua da comunidade para escoar o esgoto até a Estação de Tratamento Alegria, a principal meta do projeto.

As obras devem durar dois anos e são financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além de contribuições de organizações multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a agência francesa Proparco.

Primeiras contas de água e esgoto assustaram

A comunidade também vai se responsabilizar por parte dos investimentos através do pagamento de contas de água e esgoto. Anteriormente, esses serviços eram fornecidos pela Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae) como parte de uma política pública, mas essa prática foi interrompida após a privatização da companhia em 2021.

Hidrômetros começaram a ser instalados nas residências, e as primeiras contas chegaram em março com valores que surpreenderam os moradores. O presidente da associação da comunidade Rubens Vaz, Vilmar Gomes Crisóstomo, o Maga, relatou ter enfrentado problemas de saúde devido à pressão das reclamações contra a concessionária. Ele prevê inadimplência.

“Onde era para vir uma conta de R$ 5, veio de R$ 260, R$ 280, e até de R$ 1.153. Eles [a concessionária] disseram que iriam cobrar apenas em abril”, explica Maga.

A Águas do Rio havia prometido cobrar somente R$ 5 no primeiro ano, enquanto realizava as obras. Contudo, um erro no sistema levou à emissão das faturas. A empresa afirmou ter cancelado as cobranças e integrado os moradores na tarifa social.

Cartaz da Águas do Rio avisa das obras de infraestrutura na comunidade de Nova Holanda. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Cartaz da Águas do Rio avisa das obras de infraestrutura na Maré – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A relação entre a concessionária e os novos clientes da comunidade demanda cuidado, conforme avaliou a professora Ana Lucia de Britto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Estudiosa do saneamento há duas décadas, ela adverte sobre cobranças abusivas em comunidades carentes.

“Essas empresas possuem mecanismos diversos que visam aumentar sua receita além da simples prestação de serviços de água e esgoto”, afirma a professora.

Ela menciona taxas de corte, religação e juros em casos de inadimplência como custos elevados, que aumentam o valor das contas. Uma pesquisa coordenada por ela, a pedido da Defensoria Pública, revelou cobranças abusivas da Águas do Rio em Japeri, município da região metropolitana.

Esgoto a céu aberto

Na Maré, moradores estão dispostos a pagar um valor justo em troca de investimentos no esgotamento sanitário, desde que haja uma melhoria nas enchentes. “A gente espera que melhore, né? Quando chove, enche tudo”, ressalta Cláudia Tavares, com obras sendo realizadas na canaleta de esgoto em frente à sua casa.

Funcionários da Águas do Rio trabalham em obra de infraestrutura de tratamento de esgoto na comunidade Parque Rubens Vaz. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Obra de tratamento de esgoto na Maré – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Esse desejo é compartilhado por vizinhos em Rubens Vaz. “Acho que a rede de água e esgoto não acompanhou o crescimento da população. Hoje, se chover 10, 15 minutos, já alaga tudo”, reclama Érica Araújo de Moraes, de 59 anos.

Tuane Silva, de 35 anos, observa que as obras deveriam ter sido iniciadas há mais tempo. “A maioria das casas tem batente na porta porque a água entra. Quando não tem para onde escoar, a água suja acaba voltando”, ressalta, reforçando os desafios enfrentados, especialmente pelos moradores do primeiro andar.

Esgoto a céu aberto em beco na comunidade Nova Holanda. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Esgoto a céu aberto em beco na Maré – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em várias áreas do complexo, equipes da Águas do Rio conectam residências à rede de esgoto. Nos becos, frequentemente há ratos atraídos pela sujeira. “Estamos lidando com eles, mas não temos mais amizade”, brinca o operador da Águas do Rio, Jardel Alves, de 26 anos, sobre os desafios de trocar canos em áreas apertadas.

As intervenções são planejadas para causar o menor impacto possível nas residências, e contam com mão de obra local, uma estratégia para contornar a presença do crime organizado na região.

Fonte: Agência Brasil

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Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

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