InícioBrasilDireitos HumanosExecutivo da Nestlé teve conexão com torturador da ditadura militar

Executivo da Nestlé teve conexão com torturador da ditadura militar

O apoio empresarial à ditadura no Brasil começa a ser revelado. Uma das empresas que deixou pistas dos vínculos com o regime de opressão é a Nestlé.

O episódio 2, chamado Caixa da segunda temporada do podcast Perdas e Danos, conta a ligação entre a multinacional suíça e os porões da ditadura no Brasil.

Comprovantes

Apesar da atuação discreta, a gigante da indústria alimentícia deixou pistas do apoio dado ao regime de opressão no Brasil.

Entre as contribuições feitas em nome da empresa, pelo executivo Gualter Mano, estão as doações para o IPES, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, um think tank conservador formado por empresários e militares que ajudou a preparar o terreno para o golpe de 1964.

O Arquivo Nacional guarda os comprovantes das contribuições da Nestlé para o clube golpista.

Registros das contribuições do então presidente da Nestlé Brasil, Gualter Mano, para o IPES. Foto: Arquivo Nacional/Divulgação

Registros das contribuições do então presidente da Nestlé Brasil Gualter Mano, para o IPES. Foto: Arquivo Nacional/Divulgação

Mas há outros indícios deixados pela empresa que revelam as relações com o regime opressor e que ligam a multinacional à OBAN, a Operação Bandeirantes, o maior aparato de tortura e morte do regime militar.

A participação da Nestlé está registrada na página 330 do Volume 2 do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

“Ficou conhecido o banquete organizado pelo ministro Delfim Netto no Clube São Paulo (…) durante o qual cada banqueiro, como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doou o montante de 110 mil dólares para reforçar o caixa da Oban (…) Também colaboraram multinacionais como a Nestlé, General Eletric, Mercedes Benz, Siemens e Light”.

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O executivo versátil

Um elo pouco visível para os brasileiros é Oswaldo Ballarin. Ele era o nome da Nestlé entre os empresários homenageados pelo chefe do Estado-Maior do II Exército, general Ernani Ayrosa, no final de 1970, pelo apoio à repressão.

Oswaldo Ballarin, Executivo da Nestlé. Frame: Nestle Boycott/Youtube
Oswaldo Ballarin, Executivo da Nestlé. Frame: Nestle Boycott/Youtube

Ballarin tenta isentar a Nestlé pela morte de bebês por causa do uso de leite em pó, durante audiência no Senado dos Estados Unidos, em 1978. Frame: Nestle Boycott/Youtube

Ballarin fez carreira na Nestlé, chegando ao cargo de presidente executivo entre 1971 e 1978. Ele era tão influente que foi a pessoa escolhida para representar a multinacional em uma audiência no Senado dos Estados Unidos, em 1978, sobre a estratégia de marketing do leite em pó para bebês.

Oswaldo Ballarin tinha trânsito fácil entre os governos militares, garantindo posições elevadas em outra multinacional suíça. Simultaneamente ao cargo de presidente executivo da Nestlé, ele também chefiou a Brown Boveri, entre 1971 e 1979.

A Brown Boveri (hoje ABB) atuou em grandes obras no Brasil, incluindo a Usina de Itaipu. O consórcio em que estava integrado, CIEM, é alvo de denúncias de corrupção e violação de contratos.

Turbina geradora de Itaipu. Foto: Memória de Eletricidade/Divulgação
Turbina geradora de Itaipu. Foto: Memória de Eletricidade/Divulgação

Turbina geradora de Itaipu: as turbinas foram fornecidas pelo consórcio CIEM, do qual a Brown Boveri fazia parte. Foto: Memória de Eletricidade/Divulgação

CIA

Oswaldo Ballarin é acusado de ter contratado uma agência de relações públicas de fachada, a CIA (Consultores Industriais Associados), que, apesar da sigla semelhante ao serviço de inteligência dos EUA, atuava na vigilância de trabalhadores e na organização de financiamento para os aparatos de tortura.

Essa história foi desenterrada pela pesquisadora Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, que encontrou documentos sobre a relação do CIEM com a CIA, classificando-os como “serviços de organizações de tortura disfarçadas” e “esquadrões da morte”.

O diretor da CIA na época, Robert Lentz Plassing, é listado no relatório final da Comissão Nacional da Verdade como um dos responsáveis por torturas e assassinatos durante a ditadura.

Em setembro de 1979, Jean Ziegler, membro do Conselho Nacional Suíço, afirmou que Ballarin e a Brown Boveri eram cúmplices em homicídio premeditado.

Ballarin faleceu em 1999, afirmando que sua ligação com o DOI-Codi era restrita às atividades de relações públicas da CIA.

Investimento garantido

Diferente da Brown Boveri, a Nestlé não permitiu acesso aos arquivos a Gabriella Lima, negando o acesso três vezes.

Os números mostram que a empresa prosperou durante o período de repressão. De 1971 a 1975, a rentabilidade da Nestlé no Brasil praticamente dobrou, superando o crescimento médio do PIB.

Dumping leite em pó

Enquanto Ballarin era questionado no Senado dos EUA, no Brasil, ele tinha liberdade para dar “aulas” nas faculdades de medicina. Marina Rea, pesquisadora, recorda que Ballarin promovia fórmulas infantis em troca de financiamento para as aulas.

Em 1974, um relatório da organização inglesa War on Want acusou a Nestlé de provocar a morte de crianças em países pobres. Marina Rea ressaltou a estratégia da empresa de entrar nas maternidades e universidades.

Outro lado

Sobre as denúncias envolvendo o consórcio CIEM, a Itaipu declarou que atualmente desenvolve iniciativas voltadas à promoção dos direitos humanos.

Em relação às acusações contra a ABB, a empresa afirmou ter uma política de tolerância zero em relação a comportamentos antiéticos.

A Nestlé, por sua vez, reconheceu a importância de debater o período da ditadura e reafirmou seu compromisso com a democracia e os direitos humanos, mas não respondeu sobre a abertura de seus arquivos.

Fonte: Agência Brasil

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Fábio Sakamoto
Fábio Sakamotohttps://dfnamidia.com.br
Jornalista MTB/DRT 0011561/DF, Desenvolvedor Web. Apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e música.

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