O Instituto Nacional de Câncer (INCA) anunciou o início de um estudo inédito que avaliará a viabilidade da implementação de um programa de rastreamento de câncer de pulmão no Sistema Único de Saúde (SUS). O estudo, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e financiado pela biofarmacêutica AstraZeneca, busca implementar uma diretriz nacional para a detecção precoce da doença, visando a redução da mortalidade.
O estudo será conduzido pelo Inca ao longo de dois anos, com a participação mínima de 397 pacientes, podendo ser ampliado. Aproximadamente 85% dos casos de câncer de pulmão estão relacionados ao consumo de tabaco. A seleção dos pacientes será feita em colaboração com a Secretaria Municipal de Saúde, por meio de seu Programa de Cessação de Tabagismo, que conta com cerca de 50 mil participantes.
O rastreamento do câncer de pulmão, utilizando tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD), tem mostrado uma redução de 20% na mortalidade da doença, e essa redução pode chegar a 38% quando combinado com a cessação do tabagismo, conforme o Jornal Brasileiro de Pneumologia.
De acordo com o Inca, evidências internacionais mostram que o rastreamento com TCBD, direcionado a populações de alto risco, pode diminuir significativamente a proporção de diagnósticos em estágios avançados — de cerca de 90% para 30% dos casos. No Brasil, essa estratégia ainda não faz parte das diretrizes nacionais de rastreamento, ressaltando a importância de iniciativas que gerem evidências científicas para orientar futuras recomendações em saúde pública.
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O critério de elegibilidade dos pacientes para participação no estudo será baseado no Consenso Médico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, que recomenda que o rastreamento do câncer de pulmão com TCBD seja realizado em pessoas entre 50 e 80 anos, fumantes ou ex-fumantes (que tenham parado de fumar nos últimos 15 anos), e que tenham consumido 20 cigarros por dia durante 20 anos.
Em caso de diagnóstico positivo para câncer de pulmão, os pacientes serão acompanhados e tratados pelo Hospital do Câncer I (HC I), uma unidade do Inca referência para o tratamento do câncer no Rio de Janeiro e parte da rede de alta complexidade do SUS.
O estudo será liderado pelo médico epidemiologista do Inca, Arn Migowski. “A gente vai tentar detectar cedo, antes de ter sintomas, um câncer de pulmão, e que a pessoa pare de fumar”, disse em cerimônia no Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro do Rio de Janeiro.
“Será um novo protocolo que tem ganhado corpo em evidências robustas que queremos implementar e testar. Vamos avaliar como funciona na realidade do SUS e se conseguimos uma boa adesão, considerando os riscos. Testaremos localmente para, se for o caso, ampliar em nível nacional”, acrescentou o pesquisador.
Danilo Lopes, diretor médico da AstraZeneca, ressaltou a importância das parcerias público-privadas na pesquisa.
“O fortalecimento do SUS passa pela aproximação entre o setor público e privado. A AstraZeneca é uma companhia privada que atua em câncer de pulmão, e nosso objetivo é ir além da entrega de medicamentos, buscando mudar a história da doença no país”, afirmou.
O presidente da Aliança Brasileira de Combate ao Câncer de Pulmão, Gustavo Prado, destacou o desafio recente relacionado ao tabagismo, uma vez que houve um aumento na prevalência dessa condição devido à introdução de dispositivos eletrônicos, os vapes. “Mais pessoas estão fumando hoje, especialmente os jovens de 18 a 24 anos. Precisamos intensificar as estratégias de prevenção com uma linguagem que alcance os jovens”, disse ele.
Câncer de pulmão
O câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer no Brasil. Segundo o Atlas de Mortalidade do Inca, em 2024, houve 32.465 óbitos decorrentes de câncer de brônquios e pulmão no Brasil, superando a soma das mortes por câncer de próstata (17.826) e de mama (20.849) no mesmo ano, os tipos de tumores mais incidentes na população brasileira.
As estimativas do Inca apontam que o Brasil terá cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026–2028, consolidando a doença como um dos maiores desafios de saúde pública no país. A elevada taxa de mortalidade do câncer de pulmão está diretamente relacionada ao diagnóstico tardio: cerca de 84% dos casos são identificados em estágios avançados, resultando em uma taxa de sobrevida em cinco anos de aproximadamente 5,2%.
Confira mais detalhes no Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil.
Fonte: Agência Brasil

